Blog Lairce Cardoso

Lairce Cardoso

VIREI MÃE DA MINHA MÃE

15 de janeiro

Virei mãe da minha mãe e hoje sou como o seu anjo de guarda e sua protetora para todos os momentos do dia, sejam eles de angustia ou de alegria.  

Não sei precisar desde quando, mas eu sempre carreguei no meu coração a certeza de que um dia iria cuidar da minha mãe. Na verdade, por diversas vezes, me vi deixando tudo pra trás para ficar perto dela.  Depois da morte de meu pai, embora ela tenha contraído novo casamento, essa certeza sempre nunca me abandonou.

Acredito que isso seja por causa do seu histórico familiar. Minha mãe teve mais seis irmãos, sendo 3 homens e 3 mulheres e todos eles tiveram Alzheimer, uma inclusive por causa do resultado de uma depressão muito profunda desde a juventude. Também, mas recentemente um sobrinho muito jovem teve lombo frontal e mesmo com toda assistência da família não foi possível Salvá-lo.

Como sempre tive receio de que isso também pudesse acontecer com minha mãe, em todas as oportunidades possíveis questionei os médicos que cuidaram dela ao longo de sua vida, e eles me afirmaram que essa doença não é hereditária e nada tem a ver com genética.

Ao contrário de todas as minhas tias, minha mãe sempre foi muito ativa, e assim como eu era muito vaidosa e adorava ir para os bailes e dançar a noite toda. Ela trabalhou muito para sustentar a minha família, especialmente depois da morte de meu pai. Ela era nosso escudo.

Todos da família, inclusive eu e meus irmãos, acreditávamos que ela estaria isenta desse mal que aflige seus familiares, porque ela nunca apresentou nenhum sintoma, diferente dos meus tios que logo muito cedo já apresentava os primeiros sinais do Alzheimer.

Isso de certa forma me deixava mais tranquila porém sempre vigilante.

Mas em Outubro de 2.017, contrariando todas as nossas previsões começou a nossa luta pela manutenção da vida de minha mãe. Ela teve um AVC e fisicamente ficou um pouco mais debilitada, por isso acompanhou com tratamento médico e com fisioterapia por um ano.

Os papéis se inverteram e hoje eu virei mãe da minha mãe

Havia dias de melhoras e dias que caía um pouco sua imunidade e embora estivéssemos muito assustados e com muito medo, acreditamos, talvez porque não queríamos vê-la sofrendo, que tudo iria parar por ali e ela iria se recuperar. Ela era muito forte.

Mas com o passar dos dias ela foi ficando depressiva, às vezes ficava muito distante e foi perdendo muito peso e ficando mais debilitada.  Não tinha mais ânimo pra nada e a não havia meios de eliminar aquela bendita depressão de sua vida. Aí nos exames solicitados pelo neurologista, depois de aproximadamente um ano do AVC, foi diagnosticado o Mal de Parkinson.

E para o nosso sofrimento os esquecimentos foram ficando mais constantes e acentuados e num outro diagnóstico veio o golpe fatal: a demência era mais um dos sintomas diários em sua vida.  

Então primeiro ela teve o AVC, depois o mal de Parkinson e junto desenvolveu o Alzheimer.

Minha mãe sempre foi uma fortaleza, muito brava, altiva e decidida. Era muito difícil enganá-la e hoje ela está tão franzina e dependente porque perdeu força física nos membros e nas mãos e tem muita dificuldades para comer, além do corpo ficar em desalinho por causa dos sintomas do Parkinson, por isso é muito doloroso vê-la tão debilitada e dependente de todos.

Quando descobri que ela estava com todos esses problemas meu mundo desmoronou e tem dias que sofro muito quando a vejo tão distante, porque tem momentos que ela está no mundo dela. Mas para trazer um pouco mais de conforto e de qualidade para os seus dias de vida, do meu jeito procuro entrar no mundo dela para conseguir entender o que ela sente, e aí rimos juntas, brigamos e fazemos as pazes e procuro ficar em paz com ela.

Ela esteve presente na minha vida em todas as situações e foi minha conselheira desde as simples até nas resoluções mais complexas e de repente esse braço forte que me amparava deixou de existir e ela voltou a ser uma criança. 

Os papéis se inverteram e eu assumi as responsabilidades que eram dela e passei a tomar todas as decisões, inclusive sobre ela como se eu fosse o seu anjo de guarda. Eu passei a ser a mãe dela. É muito gratificante e ao mesmo tempo muito sofrido mas eu virei a mãe da minha mãe.

Ela voltou a ser criança e é uma lindeza, então eu quero muito cuidar dela conforme ela merece, por isso praticamente virei mãe da minha mãe. Eu fico bem em saber que ela é feliz na minha companhia, embora ás vezes ela fica brava comigo, mas isso não me aborrece porque eu sei que é assim com todos os que adoecem, eles ficam bravos com quem mais cuida deles e com quem mais tem afinidade.  Talvez seja uma forma de mostrar que confia em nós. Sei lá.

 A sensação de dever cumprido é que me fortalece e me deixa mais leve e eu procuro fazer tudo o que ela gosta, porque tenho o pressentimento que ela tem pouco tempo neste planeta e eu tenho que aproveitar o máximo da sua companhia.

Eu nem me importo de deixar de sair para passear para ficar cuidando dela.  Quando chegar a hora dela partir quero estar de consciência tranquila de que fiz o meu melhor e tudo que estava ao meu alcance e, principalmente, a certeza que aproveitamos o máximo da companhia uma da outra.

Virei mãe da minha mãe

Às vezes me entristeço um pouco, porque gostaria que a família estivesse mais unida e sinto que ainda falta mais companheirismo e isso provoca angustia, mas ao mesmo tempo penso que não sou dona do mundo, tampouco dona das pessoas e as coisas não tem que ser como eu quero.

Estou aprendendo a respeitar o tempo de cada um.  A cada dia aprendo a aceitar e a louvar a ajuda que recebo e procuro compreender que cada pessoas faz as coisas à sua maneira, que ninguém tem que agir exatamente como eu. Isso também tem me trazido um pouco mais de conforto e tranquilidade.

Peço todos os dias a Deus para colocar pessoas boas no meu caminho que me oriente e me auxilie a enxergar o é melhor a ser feito, porque como tudo eu tratava com ela, e era ela que me conduzia e orientava, hoje me falta a bússola a me guiar.  

E Deus é maravilhoso e está sempre colocando pessoas boas em meu caminho, como agora por exemplo, que trouxe de volta uma grande amiga da infância dela, que desde o momento que soube de sua enfermidade não mede esforços para nos ajudar nessa missão.  

Quando posso tiro um tempinho pra mim, especialmente quando tem alguém de confiança nos cuidados dela, pra que eu possa renovar minhas energias e continuar firme na minha missão. Sim, porque eu sinto que cuidar da minha mãe foi uma missão que Deus me enviou.

Ele nos deu a oportunidade de conviver como mãe e filha, inclusive com a incrível possibilidade de inverter os papéis para entender o significado do amor que sentimos uma pela outra. Isso, embora sofrido é de uma grandeza que poucos entendem. Mas é lindo.

 Deus tem colocando pessoas boas no meu caminho e eles tem me iluminado. Algumas pessoas da família, primas que passam diariamente pelo mesmo problema que eu e alguns amigos abençoados . Sou muito grata a todos eles.   

Eu tive muito medo, chorei muito nos meu primeiros dias e achei que eu não iria dar conta e quando eu olhava pra ela meu coração ficava em frangalhos de vê-la definhando a cada dia.

Mas hoje compreendo que esta é uma missão que recebi de Deus e aos poucos vou me fortalecendo com os ensinamentos que recebo. Por isso aceitei ser sua mãe e vou cuidar dela com muito amor e respeito para que ela tenha paz na sua partida.

Quando o cansaço e a dor bate, eu choro um pouco, desabafo com amigos, me entrego a Deus e peço proteção e aí já estou pronta para continuar e faço com muito amor.

Meus irmãos sofreram muito também, principalmente o mais velho, mas aos poucos eles foram se fortalecendo. Meus familiares dão muito apoio e as suas visitas sempre renovam nossas energias.

Ainda sonho em realizar alguns dos meus sonhos, como por exemplo ter um companheiro que esteja do meu lado e que acompanhe. Agora sei que é mais difícil com o tratamento da minha mãe, mas sei que esse sonho ainda vai se realizar. Amo viajar e ainda quero fazer muitas viagens. Conhecer lugares novos e diferentes.

Quero também me dedicar pela melhoria diária da minha espiritualidade, sempre gostei muito do meu trabalho na espiritualidade, ultimamente não estou desenvolvendo minhas tarefas como trabalhadora nos processos de cura, por causa do tempo escasso.

Eu achava que eu não estava fazendo nada, mas hoje percebo que toda minha fortaleza para cuidar da minha mãe vem de tudo que aprendi espiritualmente, de tudo que eu vivi e me dediquei para ajudar as outras pessoas. Agora entendo que o errado seria deixar minha mãe em casa para ir trabalhar por outras pessoas. Primeiro os de dentro de sua casa.

Percebo que não estou só e que recebo muita ajuda espiritual e peço que eles continuem me ajudando, por isso me sinto muito abraçada e muito amparada.

Sei que o melhor remédio que minha mãe poderia estar recebendo neste momento é esse amor que sinto por ela e minha dedicação por ela me conforta, encoraja e me preenche totalmente.  

Quer me conhecer melhor? Assista ao vídeo “Quem sou eu” https://www.laircecardoso.com.br/quem-sou-eu/

Sobre o Autor: Lairce Cardoso
Lairce Cardoso

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Nasci no berço da família Cardoso, na cidade de Paranapuã, no interior de SP no dia 15 de Julho de 1.963. Sou a nona filha do Senhor Libério e da Dona Lindaura.

Comentários (8)

Iza Responder

Olá Lairce!

Ao ler a história, lembro da história da minha mãe, que cuidou do meu avô paterno com Alzheimer, ele faleceu aos 92 anos. Cuidou da minha tia com esquizofrenia, faleceu com 80 anos. Cuidou da minha avó paterna, mas ela não teve nenhuma doença neurológica e faleceu aos 97 anos. Por último o meu pai que teve AVC e faleceu com 80anos. Assim como essa filha cuidando da sua mãe. Ela e minha mãe são mulheres guerreiras! Eu sempre ao lado da minha mãe , vivi todas essas histórias com ela!

15 de janeiro de 2020 at 15:52
Sheila Responder

Náo é nada fácil essa situaçáo para ninguém que tem um familiar nessa situaçáo,mas Deus sabe do coração de cada um que cuida ,e dá forças e coragem para nos fortalecer a fé e esperança de que se faz o melhor pelos que amamos, .Coragem e fé para mim são palavras que definem todas pessoas que cuidam com zelo e amor de todos que por algum motivo passam por essa prova. Acredito que tudo tem um motivo para acontecer,cuidar é necessário pois náo sabemos se teremos que ser cuidados também.

15 de janeiro de 2020 at 19:13
Maria Edna Responder

Linda Biogtafia,parabéns pela filha que vc é Bel,Deus lhe abençoe sempre,feliz pelo cuidado e preocupação q vc sempre teve e tem pela sua RAINHA,desejo muito e muitos anos a vc,que a cada dia Deus lhe dê mais e mais sabedoria para continuar sua jornada
Bjs
Bjs minha irmã amiga

16 de janeiro de 2020 at 00:48
Deusa Responder

Bel
Realmente é como ter uma filha, pois tal como uma criança que chega na nossa vida, assim é uma pessoa que tem Alzheimer.
Dependente, vulnerável, imprevisível, e sem manual de instrução. Pois como quem acaba de ter um filho, somos inexperientes, cuidamos por amor, aprendendo a cada dia, a cada situação.
Ao mesmo tempo que é tão complicado ao ponto de causar mesmo pânico em algumas situações, a gente ama e quer dar conforto e bem estar para esse ser especial que Deus nos deu de presente nessa vida.
Não importa se veio antes ou depois da gente, é uma benção ter o privilégio de cuidar de alguém que amamos incondicionalmente.
Felicidades e paz pra vocês
Beijos na Aninha

16 de janeiro de 2020 at 14:37
Oi Bel sou sua amiga irmã sei dá sua luta você superou tudo desejo tudo dê bom pra você é ainda vamos viver muitas coisas juntas fica forte Deus te abençoe Responder

Muito linda sua estória de filha

17 de janeiro de 2020 at 17:35
Oi Bel sou sua amiga irmã sei dá sua luta você superou tudo desejo tudo dê bom pra você é ainda vamos viver muitas coisas juntas fica forte Deus te abençoe Responder

Muito linda sua mensagem Bel muitas forças você vai conseguir realizar todos seus sonhos beijos te amo como minha irmã amiga

17 de janeiro de 2020 at 18:22
Léo alvarenga Responder

Q Deus abençoe sua vida grandemente Bel.

19 de janeiro de 2020 at 16:31
Alcirr Responder

Uma linda história de amor, entre mãe e filha. Onde a mãe cuido da a vida inteira hj a filha e os demais irmãos retribuindo com muito amor e carinho

22 de janeiro de 2020 at 11:24

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