Blog Lairce Cardoso

Lairce Cardoso

SOBRE MEU PAI

21 de novembro

Se fosse escrever sobre meu pai na minha infância talvez escrevesse que, embora ele fosse um gigante e soubesse de todas as coisas, o cara era feroz e com ele ninguém tirava farinha não.

Tinha uma firmeza no olhar que congelava qualquer moleque arteiro e fazia nossa espinha arrepiar. Hoje, com muitas saudades me recordo que no seu olhar também tinha tanta singeleza, que era capaz de acalantar qualquer coração aflito e que apenas com o seu olhar garantia a certeza que estava lá.

Era perfeito nas suas atitudes. Era muito simples, mas muito autentico. Não falava que ia fazer; fazia, não mandava recados, dava os recados.

Sempre liguei a figura do progenitor a atitudes e não a palavras, sem dúvidas por conta da minha experiência de vida com meu querido pai, que com o seu jeitão bronco de sertanejo, pouco falava tampouco mimava. Quando arqueava a sobrancelha e nos olhava pelo canto dos olhos, fazia nossas pernas tremerem.

– Laice – era assim que me chamava. Tu não vai… Bom o resto eu já nem escutava. Primeiro porque quando ficava nervoso embolava todas as palavras e a gente nem entendia o que ele falava e depois porque a palavra não já era o suficiente para saber que não podia e pronto! Não tinha discussão. Tudo com ele era muito prático. Se sim era sim, se não era não. Não tinha meio termo. Por outro lado, com toda sua simplicidade, também nos ensinava desde pequenos a decidir sobre o que era certo ou errado.

A minha maior experiência sobre isso, e que só hoje dou a devida importância, aconteceu quando comecei a curtir as baladas da vida e a minha mãe era um verdadeiro terror. Na ocasião tínhamos que pedir para ir a qualquer lugar e só íamos se autorizado fosse. Assim toda vez que eu queria ir bater perna tinha que falar com a minha mãe e ela era terrível.  A resposta era sempre a mesma:

– Vá falar com seu pai. Depois não quero reclamação no meu ouvido!

– Jesus! E lá ia eu falar com meu pai – Pai, eu posso ir a tal lugar? E a resposta, também, era sempre a mesma – Tu é que deve me dizer se pode ir. É você quem sabe.

E eu que não era boba nem nada, caprichava no meu poder de argumentação. Ele nunca me disse não. Tenho certeza que foi assim que aprendi a argumentar, falar o que penso e me posicionar frente às coisas da vida. Cargo ou poder não me metem medo.

Acompanhei meu pai ao altar na Missa de celebração de 51 anos de casado com minha mãe.

Nunca me canso de referenciar a sabedoria de meu pai, ele era mestre para em poucas palavras calar uma discussão ou dar fim no blá, blá, blá antes mesmo antes de começar o disque me disque.

Meu pai aprendera as duras penas a amar e cuidar daqueles que lhes são caros. Do pouco que conhecemos sobre seu passado, ao qual ele pouco mencionava, fora abandonado pela família, acompanhado de uma irmã mais nova.

Após a morte de sua mãe, o pai muito desgostoso resolveu ir embora para outras terras na companhia de alguns parentes. Porém, provavelmente por causa da idade avançada não resistiu ao sofrimento e em pouco tempo faleceu, deixando os filhos aos cuidados dos tios.

Sitiantes da cidade de Paramirim no sertão da Bahia foram praticamente saqueados pelos espertalhões que se aproveitaram de um caboclo sofrido com filhos que nada entendiam. Em meados de 1929, partiram numa precária aventura pelo sertão da Bahia e como não tinham nenhum meio de transporte, passavam dias caminhando. E, nesta toada os dois que eram muito pequenos não conseguiam acompanhar os tios, sendo abandonados à própria sorte, e a partir daí não teve mais noticias dos demais irmãos.

Nesta ocasião, pelos cálculos da minha mãe, ele deveria ter aproximadamente 10 anos. Contou que a irmã ficara doente e como não agüentava carregá-la, mas também não queria abandoná-la ficavam dias perdidos e demoravam muito para chegar a algum lugar onde os tios já haviam partido em retirada.

Somente depois de muito sofrimento e de passar muita fome quando chegaram a Trancoso, na época um pequeno vilarejo, foram acolhidos por uma família, coincidentemente tios da minha mãe, que lhes deu abrigo, comida, e depois de algum tempo passaram a contar com eles para auxiliar na lida da lavoura.

Na cidade de Riacho de Santana, interior do estado da Bahia, arranjado pelos parentes, meus pais se casaram e dessa união tiveram onze filhos e viveram juntos por 51 anos. Meu pai faleceu em 1989, vítima de um câncer de intestino, e minha mãe, em várias ocasiões falava sobre a falta que sua partida causara em sua vida.

 – Se soubesse que ficaria tão só, sem meu companheiro, não teria perdido tanto tempo com brigas inúteis e nem teria falado coisas tão desnecessárias como disse. Pensem nisso, não percam tempo com discussões desnecessárias com seus parceiros. Sejam adultos!

Nona filha do casal tive o privilégio de conviver com este senhor e com ele aprender o valor das coisas, especialmente o da família. Virava e mexia, minha mãe falava da minha semelhança com meu pai – Não é a toa que é filha do Seu Libério. Menina você não tem tapas na língua! Quando adolescente ficava bicuda, pois nesta idade achamos que viveria melhor sem os pais. Puro erro de cálculo. Hoje me sinto lisonjeada.

Várias histórias de comprometimento e coragem têm dele, como a vez que abriu os braços em frente a um cavalo desgovernado, sem pensar que seria mortalmente pisoteado, para salvar os meninos que estavam na charrete preso a sela do cavalo.

Mas uma, em especial, lembro com muito carinho. Quando bem jovem, entrei na onda do cigarro, comecei a dar umas pitadinhas aqui, outras ali, fui aumentando gradativamente, até me transformar numa fumante. Mas nunca tive a coragem de fumar na frente do meu pai, embora tivesse a certeza que ele sabia perfeitamente do meu deslize e que não o aprovava, embora nunca tenha dito uma palavra sobre o assunto.

Certa vez, em companhia de minha mãe, foram passear numa dessas excursões de amigos e lá foram conhecer uma feira de artesanatos. No retorno, trouxeram presentes para os filhos e, quando abri meu pacote, quase morri de tanta vergonha. Era um pacote lindo, cheio de laços e flores, que ele cuidadosamente escolheu.

Uma verdadeira façanha, pra quem o conhecia bem. Dentro, havia uma carteira para guardar maço de cigarros.

Hoje, nem sei se existe mais, mas, não ocasião, era o maior frisson. Fiquei tão surpresa, que a única reação foi abraçá-lo e pedir desculpas. Desde aquele dia, me tornei uma ex-fumante. Não precisou dizer uma só palavra sobre o mal que estava causando a mim mesma, mas eu entendi exatamente tudo do discurso que preparara para mim, num único gesto.

Tempos mais tarde, por falta de cuidados comigo mesma, voltei às pitadinhas aqui e ali e quando me dei conta era novamente uma fumante. Por causa de problemas de saúde e do pedido solene de filho para largar o cigarro, foi a ele que em oração pedi socorro. E sei que de alguma forma ele me mandou outra carteira de cigarros, pois há mais de anos não coloco um cigarro em minha boca.

Centenas são as provas de sua fidelidade para comigo, ainda nos dias atuais. Só é uma pena, e às vezes me entristeço, por ter percebido isso um pouco tardio e não pude dizer-lhe o quanto eu o admirava. Mas, depois me animo porque sei que nada nesta vida acontece por acaso. Tudo tem seu propósito e tempo certo para acontecer e se algumas coisas não conseguimos entender com o nosso parco conhecimento é porque assim que deve ser. E tenho certeza que, seja lá onde estiver, ele sabe da minha admiração por ele.

Mas embora a saudade insista em bater no peito vez ou outra, hoje sou feliz com a minha relação de pai e filha, pois através de minhas orações sinto que ele me fortalece e me sustenta. Meu pai ainda é meu conselheiro para todas as coisas da minha vida.

Padre Zezinho canta na Oração da Família – Que o homem carregue nos ombros a graça de um Pai. É isso, ser pai é ser benevolente e ter o privilégio de agraciar sua família com os dons que Deus lhe concedeu.

Assim foi e é meu Pai.        

          Quer me conhecer melhor? Assista ao vídeo “Quem sou eu” https://www.laircecardoso.com.br/quem-sou-eu/                                                                             

Sobre o Autor: Lairce Cardoso
Lairce Cardoso

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Nasci no berço da família Cardoso, na cidade de Paranapuã, no interior de SP no dia 15 de Julho de 1.963. Sou a nona filha do Senhor Libério e da Dona Lindaura.

Comentários (2)

Thaynara Responder

Que linda história tia,não tive a oportunidade de conhecê-lo mas a sempre conta um pouco da história de quando ela era pequena.
Queria ter tido a oportunidade de conhecê-lo sei que amaria ele assim como amei e amo minha bisa que hj me faz muita falta ?♥️

21 de novembro de 2019 at 18:00
Francisco Responder

Este homem guerreiro não foi somente um conselheiro para os filhos, mas para todos , eu como sobrinho gostava de ouvi-lo e morria de medo do seu olhar também

21 de novembro de 2019 at 19:19

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