Blog Lairce Cardoso

Lairce Cardoso

A MINHA VIDA É UM VERDADEIRO TEATRO

16 de janeiro

Como a vida imita a arte a minha vida é um verdadeiro teatro.

Grupo de Escoteiros do ar Anhanguera
Cidade de Campinas

As melhores lembranças que guardo da minha infância são dos seriados japoneses, do futebol e dos domingos na casa da Vó Lindaura.

Lá tinha a mesa de truco dos pais, as rodas de conversas das mães, o macarrão delicioso com molho vermelho da vó, os doces da venda do Vô Libério e o encontro com os primos.

Quando meu primo Willian foi diagnosticado com leucemia, ele morava no mesmo quintal da minha vô e aí ficamos muito próximos, foi dele que herdei o apelido de Wangô, que vingou por algum tempo, depois acabou sendo esquecido. Depois virou Wan e hoje sou Wander.

Quanto eu tinha cinco anos meus amigos eram os meus primos e os garotos da rua da casa da minha vó. Certas lembranças são muito fortes e uma delas é de quando eu chegava na venda do meu avô e dizia: Bença Vô e recebia um rápido:  Deus te abençoe. Então eu já emendava o diálogo com a conversa de sempre: Posso pegar uma paçoquinha?

Ele parava e me olhava pausadamente, criando um suspense gigantesco e depois de alguns segundos que pareciam horas dizia: Pode pegar e voltava a jogar dominó com os amigos.

 À noite minha vó ficava ouvindo minhas piadas e eram todas copiadas do repertório do Ari Toledo.

Conservatório Carlos Gomes
Gota Dágua – Texto Musical Chico Buarque de Holanda
Direção Abilio Guedes




Aos oito anos tive meu primeiro contato com teatro em uma oficina gratuita no meu bairro e mal sabia que isso nortearia para sempre a minha vida. 

Depois de apresentar meu primeiro espetáculo fui convidado para fazer parte do grupo- Bando Teatral Arte Viva Em Busca de um ser, e então, comecei a acompanhar os ensaios para espetáculo adulto.

Aos nove anos ganhei dos meus pais, no meu aniversário, o livro Ópera do malandro. Eu lia aquele livro para todos, apesar da dificuldade de leitura de uma criança de 9 anos, até para meu avô que era meio fechadão e não gostava muito de me ver lendo, mas ria muito principalmente quando eu fazia o personagem Fernandes de Duran.

Aos dez anos entrei para o escotismo mais mantive acesso o sonho de ser ator quando crescesse.

Aos 12 anos participei do Festival de teatro Paulo Autran e tive a honra de receber meu primeiro prêmio como ator revelação das mãos desse monstro do teatro e com a empolgação de uma criança disse a ele:  É isso que eu quero fazer para viver. 

E ele com um sorriso bondoso respondeu: Menino não queira fazer teatro para viver porque isso vai virar obrigação e perderá o encanto, viva para fazer teatro e você vai ver que é muito melhor. Esse foi um dos melhores conselhos que recebi na minha carreira artística.

Conservatório Carlos Gomes
A Ópera do Malandro – Texto musical de Chico Buarque
Direção Abilio Guedes

Aos sábados quando saia do escoteiro ia para a casa da minha vó e pousava lá porque no domingo de manhã ia à catequese na Matriz de Santa Luzia e minha catequista era a Tia Lairce. 

A gente conversava muito e um dia ela me contou sobre um cara que era seu gerente na empresa onde trabalhava que era diretor de teatro. Tinha muita vontade de conhecê-lo e passei a colecionar notícias e reportagens que encontrava sobre ele.

Minha adolescência e juventude foram engajadas no escotismo e nos movimentos de teatro amador. Eu olhava com admiração atores dos grupos profissionais de Campinas. Participava de todas as oficinas e workshopngs oferecidos pelas companhias teatrais e tive a oportunidade de conhecer muita gente famosa que eu admirava nos palcos.

Aos 14 anos percebi que seria muito difícil ser ator e viver desse ofício, mas não desisti e continuei batalhando pela realização daquilo que sempre amei e nessa época em um festival da FECANTA (Federação Campineira de teatro Amador) assisti a um espetáculo que mexeu muito comigo.

Era um texto de Zeno Wilde intitulado “Uma Lição Longe Demais” e eu me apaixonei por essa peça, por isso tentei montá-la em várias oportunidades, mas infelizmente naquela ocasião não tive êxito e esse desejo ficou entalado na garganta.

Aos 20 anos declarei à minha família o desejo de fazer um curso profissionalizante ou uma faculdade de teatro. Meu pai conseguiu, através de uma permuta de prestação de serviços, me matricular no Conservatório Carlos Gomes num curso profissional.

Do Espetáculo Y Viva Garcia Lorca – Grupo de Teatro Taraumara Campinas
Direção de João Batista Mendes

Tive a maior surpresa quando fui conhecer meus professores e lá estava ele, o diretor de teatro que minha tia havia contado tantas histórias e ele seria meu professor de interpretação. Nesta época eu tinha muitos recortes sobre a sua trajetória artística guardados em uma pasta, inclusive de peças que nunca tinha visto.

Também tive o privilégio de ter professores incríveis que foram os alicerces do que hoje eu sou. Ali, com muita dedicação, aprendi que mesmo sendo gordo e desajeitado poderia dominar o palco, desde que eu desejasse e acreditasse nisso e aprendi também a me encantar por outras áreas dentro do teatro diferentes de interpretação.

E tenho que dar grande destaque a Serjo Magalhães professor de interpretação, que me mostrou que a realidade não é assim tão glamorosa quanto parece e que o teatro é feito de 99% de trabalho e 1% de talento. Realidade nua e crua.

Foi no Teatro que eu conheci a Luana e lá começamos a namorar. A diretora que nos dirigia num espetáculo musical dizia que foi a música que nos envolveu – oh lua branca que ilumina a imensidão, nessa noite especial, ilumina o meu porão.  Acho que ela tem razão.

Do espetáculo A Bela e Fera
Produtora Culturamix de São José dos Campos
Direção de Maria Patricia Toneti

Mas por causa de alguns problemas administrativos o pessoal da minha classe saiu do curso e eu fui para outra classe onde estava sendo preparado o espetáculo a Òpera do malandro.

Não cabia em mim de contentamento quando no sorteio dos papéis fiquei com o personagem Fernandes de Duran, aquele que interpretava para o meu avô.

Porém, devido a uma desavença entre duas atrizes, os personagens foram redistribuídos e eu perdi a oportunidade de interpretar Fernandes de Duran . Cheguei em casa arrasado e chorei muito por ter perdido aquele personagem. Fiquei tão decepcionado que destruí minha pasta e todo o material que tinha sobre o tal diretor.

Nunca mais tive outra chance de fazer Fernandes de Duran. Nunca mais fiz Ópera do malandro. E para piorar a situação por causa de um mal entendido, perfeitamente normal de uma noite de estreias, o grupo teatral ficou apenas na promessa e isso destruiu o sonho de muitos. Ainda admiro o trabalho desse diretor, mas ainda não consegui superar essa frustração. 

Um momento de extrema alegria foi quando, aos meus 22 anos, o conservatório foi convidado a fazer um bate papo com o ator Paulo Autran, depois de 10 anos que eu havia recebido de suas mãos meu primeiro prêmio e o maior dos conselhos.

E depois de uma rodada de perguntas tipo “roda viva” me levantei e disse: – Paulo há 10 anos quando você esteve aqui em Campinas em um festival que levava seu nome e pude ter a honra de ser premiado por você, mas também de receber um grande conselho seu e quero lhe dizer que suas palavras não foram em vão, e hoje, eu estou aqui estudando para ser profissional e vivendo para fazer teatro e você tinha razão Paulo é realmente muito melhor viver para fazer teatro.

Seus olhos encheram de lágrimas e ele disse:  Oh menino! Vem aqui para eu te dar um abraço… Abraçamo-nos e eu ouvi um soluçar contido no meu ombro. Olhei para ele e emocionado disse-lhe:  Obrigado por você existir! E ele com a voz trêmula respondeu-me: Não, obrigado por você existir. 

Do espetáculo Peter Pan
Produtora Culturamix de São José dos Campos
Direção de Maria Patricia Tonetti

Aquele foi o sinal que eu estava no caminho certo.

No período de 2002 a 2007 foi uma época muito importante para minha bagagem profissional, pois trabalhei no Centro Cultural Evolução em Campinas com o Diretor Jonas Lemos e lá executei tarefas que ajudaram a ter conhecimento da vida por trás das cortinas. Lá fui Técnico de Teatro e trabalhei como Iluminador de galerias de arte, Sonoplasta, Projetista de Cinema. Também tive a oportunidade de conviver com vários artistas nacionais e internacionais.

Os anos se passaram eu me formei e como infelizmente a maioria dos artistas segui sua vida entre trabalhos teatrais e convencionais, pois precisava de uma renda para me manter e no Brasil a vida do artista é muito penosa. Na teoria a profissão até é reconhecida, porém na prática não é muito pouco valorizada.

Do espetáculo O Pequeno Príncipe
Produtora Culturamix de São José dos Campos
Direção de Maria Patricia Toneti

Entre uma atividade e outra fui convidado para trabalhar com uma produtora de São José dos Campos e lá trabalhei por 3 anos e depois me desliguei para uma nova experiência.

Mas algo inusitado em minha vida aconteceu e acredite se quiserem, mas até Pastor Evangélico eu fui.

Quem me conhece jamais acreditaria que isso é verdade, mas comecei dirigindo e apresentando um programa chamado Reino Jovem, depois com o argumento incontestável do Apostolo da igreja “Deus está me cobrando para você ser pastor” não consegui resistir e aceitei o desafio.

Como recusar? O apelo era irrecusável.

Porém logo ficou muito claro para mim que aquela não era minha vocação e pela incapacidade de continuar com meu trabalho artístico, além de outras situações ocorridas, resolvi retornar ao meu trabalho na produtora de São José dos Campos, onde vivi mais alguns anos do teatro, chegando inclusive a ser assistente de direção.

Atualmente resido em São José dos Campos e estou cursando Pedagogia no intuito trabalhar com arte na área da educação, enquanto isso fundei um grupo de Teatro chamado Ateliê Cooperativo Teatre-se – ACTs e no dia 05/12/2019, data do meu aniversário de 41 anos de idade, recebi desse grupo um dos maiores presentes de minha vida.

Finalmente estreamos o espetáculo “Uma Lição Longe Demais” de Zeno Wilde.

Do Espetáculo Uma Lição Longe Demais
Direção: Wander Moliani
Rappers: Lil Baby, Mok MC e MC Triz
Do espetáculo Uma Lição Longe Demais
Direção: Wander Moliani
Elenco: Nicole Castilho, Pamela Bach, Vitor Antônio e Pilim Contal

Para esse espetáculo pude contar com a assistência de direção de Pilim Contal e com um elenco maravilhoso formado por: Nicole Castilho, Vitor Antônio e Pamela Bach além dos Rapper`s Monk MC, Lil Baby e Triz.

Também tenho me aventurado no mundo do cinema e já atuei em dois filmes de curta metragem e em dois filmes de longa metragem, além de exercer atividades concomitantemente , em praticamente todos eles, como Assistente de direção e iluminador.

Do filme DESALMADOS
Produtora Alabama Pros de Paulínia
Direção de Flavio Carnielli

Em 2.010 fiz meu primeiro longa, num filme chamado DESALMADOS sob a direção de Flavio Carnielli e a produtora Alabama Prods que conta a história ocorrida na pequena cidade de Nova Tessalônica, um verdadeiro milagre! Mas a santa que brota da terra traz mais do que júbilo: ela é a mensageira de Deus para o teste derradeiro da humanidade.

Cena do filme Formula Selvagem que será lançado até o final de 2.020
Produtora Alabama Prods de Paulínia
Direção de Flavio Carnielli

Ao todo são 31 anos de carreira onde atuei em 16 espetáculos teatrais infantis, 19 espetáculos teatrais para adultos, 1 animação de bonecos, em 7 espetáculo trabalhei como iluminador, em 8 espetáculos fui Assistente de Direção, editor em 1 filme de média metragem e 2 filmes de curta metragem e, finalmente em 1 espetáculo atuei como Diretor.

Tenho muito orgulho de ser o único ator de Campinas a ter um filme, ainda que de curta metragem, apresentado no Festival de Canês ” O Livro da Salvação”. Não tenho palavras para descrever o que foi essa experiência.

Festival d e Canês – Curta o Livro da Salvação

Por isso, aproveitando as palavras do meu grande ídolo, eu digo a todos que fazem parte da minha trajetória de vida, seja lá positiva ou negativamente porque de ambos recebo ensinamentos para ser o que hoje eu sou:  

MUITO OBRIGADO POR VOCÊS EXISTIREM!

Conheçam mais sobre o trabalho desse grande ator acessando:

https://www.youtube.com/channel/UCWZ9g0gxNLRtoibDpM_UZzA?view_as=subscriber

Face: https://facebook.com/wandermoliani01/?ref=bookmarks

Insta: https://www.instragram.com/wander_moliani/

Quer me conhecer melhor? Assista ao vídeo “Quem sou eu” https://www.laircecardoso.com.br/quem-sou-eu/

Sobre o Autor: Lairce Cardoso
Lairce Cardoso

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Nasci no berço da família Cardoso, na cidade de Paranapuã, no interior de SP no dia 15 de Julho de 1.963. Sou a nona filha do Senhor Libério e da Dona Lindaura.

Comentários (8)

Elias Lopes Responder

Impressionado. Parabéns

17 de janeiro de 2020 at 02:02
Celida Edna de Pinho. Responder

Em histórias maravilhosas como esta, percebemos o valor do artista e a sua importância.
Parabéns pela linda jornada.

17 de janeiro de 2020 at 06:28
Jean Responder

Muito legal, o teatro e toda forma de arte embeleza o mundo. Parabens.

17 de janeiro de 2020 at 10:46
Daiane Responder

Wander, parabéns pelo trajetória, que você tenha sempre muito sucesso e alegria com o que faz! Um abraço!

18 de janeiro de 2020 at 15:24
Léo alvarenga Responder

Emocionante história, parabéns e muito sucesso ?

18 de janeiro de 2020 at 20:25
MARIELLY CARDOSO VASCONCELOS Responder

Parabéns pela sua trajetória, mesmo com tantas dificuldades, tantas vezes vc ouviu para desistir, e mesmo com o coração triste, vc seguiu em frente, enfrentando tudo e todos….e não poderia ser diferente, né?! Sou sua fã, e torço mto pelo seu sucesso, sua felicidade. Estarei sempre te aplaudindo e te amando com vc é! Sua irmãzinha mais azeda… Kkkkkk..
Mari

19 de janeiro de 2020 at 01:55
Flávio Responder

Ator foda demais, merecidíssimo. O Wander tem a capacidade de se transformar em qualquer coisa que ele quiser.

21 de janeiro de 2020 at 02:35
Isabel Fernandes Responder

Parabéns Wander….sucesso!!

21 de janeiro de 2020 at 18:29

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