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Lairce Cardoso

QUANDO AS APARÊNCIAS ENGANAM

24 de janeiro

Em pouco na cidade grande Larissa já pode perceber que quando as aparências enganam as máscaras caem e assim pode-se revelar o oculto de cada pessoa, até encontrar apoio de onde menos espera.

Logo nos primeiros raios de sol Larissa estava batendo em retirada da casa tia, conforme prometido na noite anterior e na pressa de sair daquele rapidamente do local , pois não queria se encontrar novamente com a tia, quase atropelou Marion, assustando-se com o comentário repentino da moça.

– Vai mesmo se mandar de mala e cuia por esse mundão de Deus?  Tem ideia pra onde vai nesta cidade louca? Olha, que ela costuma engolir menininhas danadinhas com cara de santinhas. Disse com um risinho sarcástico.

 – E por que eu deveria dar-lhe satisfação? Quem é você?

– Alguém que poderá te ajudar?

– Qual o seu nome?

– Que diferença faz meu nome?

– Nenhuma, mas se quer me ajudar não é porque foi com minha cara tampouco porque é boazinha, é claro que deve ter um bom motivo e naturalmente quer alguma em troca.

-A bem da verdade, eu tenho teto para me abrigar e quem está perdida é você boneca. Que azar, a tia não é boazinha, né?

Eu estou perdida sim, mas se achar que pode zombar de mim está muito enganada, se veio atrás de mim é porque posso te oferecer alguma coisa que, provavelmente deixará de ter se eu resolver não te dar bola e me aventurar pela cidade, portanto guardando as devidas proporções estamos no mesmo barco, por isso fale baixo.

– Olha aí a caipirinha é espertinha. Muito bem não vamos perder tempo com conversa fiada. Meu nome é Marion moro aqui na casa e ouvi sua conversa ontem com sua tia e eu posso ajudar se quiser.

– Por que? E o que quer em troca?

– Calma caiçara. Não posso ficar falando aqui com você. Se quiser minha ajuda, e acredite não encontrará muitas pessoas dispostas a te ajudar por aqui, então me espere hoje neste endereço. Não é muito longe daqui e dá até para ir caminhando.

– De quem é esse endereço?

– É muito curiosa. É da casa do meu amigo Rodolfo, eu Já falei com ele e está esperando por você e mais tarde irei até lá para conversarmos.

– Falou com ele? Porque acha que irei até lá? Nem sei quem é você, tampouco quem é esse homem. Porque deveria confiar em vocês?

– Porque é a única alternativa que tem agora e você é quem sabe. Garanto que ele não encostará a mão em você e como disse estarei lá a tarde. Agora tenho que entrar.

Marion virou-se e entrou na casa deixando Larissa a examinar o endereço no pedaço de papel em suas mãos.

Rosa assistiu de longe a conversa das duas mulheres e não gostou do que viu. Conhecia Marion e sabia que sua moral era um tanto duvidosa, mas não iria se meter, mesmo porque Larissa não era sua responsabilidade.

Marion passou por Rosa que a olhou com ares de reprovação e a moça sustentou o olhar sem melindrar e continuou seu caminho. Nenhuma palavra fora dito, mas muitos recados foram entendidos naquela troca de olhares.

Já era quase fim do dia Marion chegou à casa de Rodolfo.

– Até que enfim! Não aguentava mais esperar. Larissa foi dizendo sem muita paciência.

– Acha que todo mundo tem tempo como você boneca. Aqui todos trabalham para se sustentar. Respondeu Marion muito irritada com o jeito mimado de Larissa.

– Sei bem qual é o seu trabalho?

– Falou a Santa do pé sujo, acaso deixantes o Hábito em casa para ser lavado Irmã Larissa?

– Por favor! Vamos deixar as picuinhas de lado e vamos ao que interessa. É para isso que estamos aqui, não? Rodolfo disse tentando acabar com aquela conversa.

– É isso! Vamos ao que interessa. Disse que poderá me ajudar. Como fará isso? E o que quer em troca?

– Vamos com calma. Para ajudá-la preciso saber o que realmente quer com Genaro. Quer dinheiro? Quer tirar o filho? Quer o safado de volta? Enfim, vai se encontrar com ele para o que? 

– Você é bem direta e não mede as palavras não é Marion? Também é bem enxerida, assim sendo o que lhe interessa sobre o que quero? Quero ter um encontro com ele e não tenho que dar satisfação a vocês dos meus atos. Aliás que informou o nome dele?

– Pelo amor de Deus! Deixa de ser dondoca, pouco me importa o que vai fazer da sua vida e não estou aqui para recuperar sua alma perdida, tampouco sou cupido. Quero apenas saber para traçar uma estratégia e para saber qual o tipo de enrascada estamos nos metendo. É por isso, entendeu Dama das Camélias?

 – Pelo amor de Deus! Mais uma vez vou pedir encarecidamente, vamos deixar as picuinhas e deboches de lado e focar no que interessa. Vocês duas parecem duas idiotas a se alfinetar. E a senhora Dona Marion, parece que tem muito tempo para ficar brincando, acaso não tem horário para retornar à casa? Se continuarem com essas bobagens vou cair fora e vocês duas que se virem.

– Está bem! Quero apenas o que é meu por direito e se ele tem muito dinheiro é justo que me ajude com a criação do filho, afinal de contas, não o fiz sozinho.

– Estava quase apostando nisso, que tivesse feito esse filho sozinha, já que ele se mandou antes de saber a notícia. Disse Marion, sem medir o risco que corria.

– Olha aqui, sua….

– Chega! Berrou Rodolfo, esta é de verdade a última advertência.  A primeira piadinha a partir de agora estou fora, entenderam suas vadias.

Com a grosseria imposta por Rodolfo, ficou claro que era melhor elas se entenderam e resolveram baixar a guarda e pelo tom de voz do rapaz elas sabiam que ele estava falando muito sério.

– Muito bem! Se é dinheiro que quer vou traçar uma estratégia de ataque, andei pesquisando sobre o rapaz e pelo que descobri a família, especialmente o sogro não queria esse casamento, mas a esposa enfrentou a todos e os fez engolir o mancebo. Parece que o garanhão cumpre direitinho o seu papel de macho. Disse lançando um olhar de safadeza para Larissa.

Ela corou, mas nem ousou dizer uma palavra, bastou o olhar de Rodolfo para que ela mantivesse o foco na conversa sem desviar o assunto com mais uma discussão com Marion.

– Diante das informações que recebi, tenho pra mim que devemos procurar pela esposa e não por ele. Já que o dinheiro é dela e não dele. Disse Marion

– Tá maluca! Se procurarmos por ela provavelmente me mandará embora com uma mão na frente e outra atrás. Especialmente, se como disse o dinheiro é dela, então nosso plano vai pro brejo, mas ainda não me respondeu como ficou sabendo de tudo isso.

– Essa é uma pergunta que não se faz a uma mulher da vida. Apenas sei.  Bom! Pelo menos essa discussão serviu para eu ter uma certeza!

– Não tinha muito certo se o que queria era dinheiro ou se ainda estava atrás do safado. Mas já está claro pra mim que paixão não tem aí. Mas pelo que sei o rapaz é bem tinhoso e não irá querer perder essa oportunidade de ouro que conquistou, assim se meter-se com ele é bem capaz de querer se livrar você, pois Não irá querê-la a estragar seus planos.

– Pois bem, então trace suas estratégias e apresente-me. Se eu aprovar, sigamos em frente. Se eu não aprovar, será do meu jeito.

– E daí estará por sua conta e risco – disse Rodolfo – Não vou arriscar meu pescoço por causa de uma maluca que acha que está tratando com os amigos da roça. Aqui o buraco é mais embaixo minha filha.

Marion quase riu com a fala de Rodolfo, sabia que ele estava começando a perder a paciência com o arzinho de sabichona de Larissa e tratou de encurtar a conversa, antes que desandasse.

– Hoje vou ver o que consigo mais informações que nos auxilie e amanhã conversamos.

– Antes, quero saber porque estão me ajudando e o querem em troca. Disse Larissa

– Quem disse que queremos ajudá-la – Rodolfo voltou a falar. Estamos apenas juntando o útil ao agradável, ambos queremos algo e estamos unindo nossas força apenas para atingir o objetivo que queremos. Só isso. Não tenha ilusões não queremos ser amigos.

– E eu nem quero ser amiga de vocês! Disse Larissa muito irritada. – Mas desde que cheguei aqui me tratam como se eu fosse uma idiota. Pode ser que eu não tenha a habilidade que vocês tem, mas idiota não sou. Não me subestimem. Qual é o preço de vocês? De quanto dinheiro estamos falando?

– Assim fica mesmo mais fácil a negociação, às claras, mas ainda não sabemos, até o fim da negociação acertaremos isso.

– Para que vocês querem esse dinheiro?

– Isso não importa Larissa, faça sua parte que faremos a nossa.

– Negativo! Me sugaram até o fim para obter todas as informações que não os colocasse em risco. Também quero saber para que é esse dinheiro. Tá na cara que estão metidos em alguma enrascada, portanto vamos desembuchem! Em que maracutaia estão metidos?

Marion e Rodolfo se olharem e permaneceram em silêncio, não esperavam por aquele interrogatório.

– Bom, se não podem me falar – Foi se levantando Larissa – acho melhor me retirar. Também não vou arriscar meu pescoço com quem não confia em mim. Posso estar perdendo, mas com certeza devo perder menos, porque posso voltar para minha casa e lá continuar minha vida. Mas tenho a impressão que vocês irão perder muito mais.

Mediante o silêncio dos dois. Falou irritada.

– Vamos! Acaso o gato comeu a língua de vocês? Como me disse a Tia Rosa.

– Espere Larissa! Disse Marion. Sente-se, por favor…

– Marion! Acho melhor que essa conversa pare por aqui. Disse Rodolfo muito apreensivo

– Porque? O que temos a perder, mas do que já perdemos? E voltando-se para Larissa continuou.

 – Sente-se vou contar para que queremos o dinheiro. Quando vim para São Paulo tinha o sonho de construir uma vida dourada, de encontrar um príncipe encantando e de ser a mulher mais feliz do mundo. Conhecia umas amigas que estavam aqui e elas bordavam a vida como se tudo fosse um mar de rosas. Minha família foi contra, mas eu, totalmente iludida, fugi sem um centavo no bolso. Trazia apenas sonhos e esperança.

– É claro que não aconteceu nada do que eu sonhava e para me manter trabalhava fazendo pequenos serviços e ia me mantendo. Tinha uma vontade louca de voltar, mas a vergonha me paralisava. Mesmo porque meu pai jamais me aceitaria de volta. Ele é uma boa pessoa, mas a sua vontade é soberana e todos o obedecem sem questionar, estando ele certo ou não.

– Todo o autoritarismo do meu pai foi fazendo com que os filhos e até a minha sofrida mãe tivessem vontade de ficar longe dele. E assim, um dos meus irmãos, o mais jovem, também teve a ideia de vir para a cidade grande.

– Insisti pra que ficasse lá e tentasse algo por lá mesmo, pois aqui a vida não estava fácil, mas ele achava que eu era egoísta, que tinha vindo pra cá e me dado bem na vida, por isso, não o queria por perto. Nunca contei a nenhum deles as dificuldades que tinha para sobreviver.

– Então ele decidiu e veio pra capital e logo nas primeiras dificuldades, buscou algumas alternativas escusas para sobreviver. Se enfiou no mundo das drogas e, no começo, com pequenos delitos. Foi envolvendo-se cada vez mais no submundo e só quando não tinha mais forças para sair dele é que veio me procurar. Queria sair daquela imundice, mais a barra nesse mundo insano é muito pesada, e não tem perdão.

– Fiz o que pude, mas sozinha e fragilizada não consegui livrá-lo daquela situação. E foi tentando fugir daquela bandalheira que ele se envolveu numa briga e, nem ele sabe ao certo como aconteceu, mas a discussão acabou num assassinato de um jovem estudante que era filho de pais influentes da cidade.

Ele está preso Larissa. Sem esperanças de sair de lá para que tenha a oportunidade de corrigir o mal que causou a si mesmo. Minha mãe sofre demais e pediu para Rodolfo vir nos ajudar. Mas somos de classe pobre, muito humilde e não temos dinheiro para pagar um bom advogado e os públicos nada conseguiram até hoje.

– Por isso aceitei o emprego na casa de sua Tia Rosa. Pensei que além de conseguir um bom dinheiro também conseguiria bons contatos que pudesse nos ajudar. Tem homens influentes que frequentam a casa.

– Esse dinheiro é para pagar um advogado para o meu irmão. Sei que ele não agiu corretamente, mas tem apenas 21 anos, e devo isso a minha mãe. A culpa foi minha, se eu não tivesse vindo pra cá, talvez ele também não tivesse tido essa ideia. Concluiu Marion com o olhos marejados de água.

– A tia Rosa sabe disso? Perguntou Larissa.

– Sim, mas disse que não se envolveria em nada e advertiu-me duramente, dizendo que se eu arrumasse alguma confusão me colocaria para fora. Não queria a casa envolvida com confusão.

– Imaginei, isso é bem dela mesmo. Tem um discurso de santa, mas age como uma puta. Desculpe-me nada a ver com você é que odeio hipocrisia. Muito bem, informações prestadas, não toquemos mais no assunto e nos reunimos amanhã para traçar nossa estratégia.

– Está bem! Virei amanhã no fim do dia. Agora devo ir, pois não quero que percebam minha ausência. Rodolfo, arrume um lugar para Larissa dormir. Pode ser? E sem esperar reposta saiu apressadamente porta afora.

Larissa ficou por alguns instantes a observar Rodolfo olhando para o nada como se esperasse por alguma resposta. De repente, como se saísse de um transe, sem nada falar, levantou-se e entrou na casa voltando com roupas de cama e uma toalha.

– Se quiser tomar seu banho sabe onde é o banheiro e para passar a noite se arranje no sofá. Tem comida na geladeira, caso tenha fome. Tranque a porta e não a abra para ninguém. Voltarei amanhã de manhã.

Larissa quis perguntar para onde ele ia, mas se conteve. Ele virou-se e silenciosamente saiu da casa, batendo o portão atrás de si.

Capítulo XIII – Quando as aparências enganam

Quer me conhecer melhor? Assista ao vídeo “Quem sou eu” https://www.laircecardoso.com.br/quem-sou-eu/

Sobre o Autor: Lairce Cardoso

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Nasci no berço da família Cardoso, na cidade de Paranapuã, no interior de SP no dia 15 de Julho de 1.963. Sou a nona filha do Senhor Libério e da Dona Lindaura.

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