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Lairce Cardoso

QUANDO A TRAIÇÃO VEM DA MELHOR AMIGA

10 de janeiro

Mal o dia amanheceu e Carolina já estava no casarão, há dias não dormia ou comia direito, se colocou no lugar da amiga e ficou imaginando o sofrimento quando a traição vem da melhor amiga. Precisava ajudar Larissa.

Ainda que o imponente casarão necessitasse de uma boa reforma era muito bonito e confortável e os jardins externos eram bem elegantes e arborizados e tinha um frescor de cidade interiorana.

Porém raramente Larissa saia do quarto para desfrutar do conforto da residência e agia com muita cautela para não se encantar com aquele lugar porque sabia que sua estadia por ali seria por poucos dias , além disso, o risco de se encontrar com a mãe, Giuliano ou Carolina a fazia perder o ânimo de perambular por aquele território.

Tinha guardado o bilhete de despedida de Genaro, e às vezes sentia uma vontade enorme de saber o que ele tinha escrito, mas temia que suas palavras pudessem interferir nas suas decisões e assim como fugia de todos, também não se arriscava a tomar conhecimento das palavras daquele homem que lhe causara tanta dor e sofrimento.

Não queria sofrer a influência de ninguém e no momento de agir queria decidir por si mesma.

Entretanto naquela manhã passou horas olhando para o envelope que trazia seu nome grafado com a caligrafia que tão bem conhecia. De repente, sem conseguir controlar a explosão de raiva, rasgou furiosamente o envelope destruindo o ignorado conteúdo, como se aquele gesto pudesse destruir, também, dos seus pensamentos a lembrança daquele homem que ainda a magoava tanto.

– De você quero apenas o que é meu de direito! Maldito.

Queria gritar a plenos pulmões para amenizar a dor que trazia no peito, mas conteve-se e se enfiando sob os lençóis chorou baixinho para que ninguém a ouvisse. E aquele foi mais um dia de clausura. 

No manhã seguinte Larissa sentiu o sol aquecendo sua pele. Levantou-se ainda muito tristonha e depois de sua higiene matinal, percebendo a quietude da casa desceu em silêncio as escadas internas do casarão, para que ninguém a ouvisse, caminhando cuidadosamente para o belo jardim que ficava na área externa da casa.

O calor do sol e a brisa gostosa da manhã funcionaram como um antídoto contra o desanimo que abateu sobre ela nos últimos dias, assim tentando não pensar em nada, Larissa caminhou tranquilamente desfrutando o bem estar da natureza oferecia. Queria apenas sentir-se viva.

Como estava muito frágil e debilitada, a caminhada apesar de curta, tirou-lhe o fôlego.  Lembrou-se do jardim interno da casa e resolveu descansar um pouco mais, antes de voltar para os seus aposentos,

Ali em meio as flores delicadas sentiu-se energizada por causa do perfume suave e da beleza das cores que adornavam o pequeno, mas aconchegante jardim, que ser observado com mais cuidado trouxe encantamento aos olhos da moça.

De fato a beleza pode estar nas pequeninas coisas, mas porque não nascemos com sabedoria para apreciar isso. Meu Deus, como somos imbecis! Falou para si mesma.

Sentiu o estômago doer e lembrou-se que ainda não havia comido nada desde que se levantou. Caminhou lentamente em direção à cozinha do grande casarão, mas arrependeu-se da ideia quando lá chegou e quis dar meia volta antes que percebessem sua presença, porém já era tarde, Carolina notou sua presença assim que ela entrou no recinto.

– Deseja alguma coisa, senhora? Perguntou gentilmente a serviçal que a visitava todas as manhãs levando seu desjejum.

Larissa virou as costas sem nada responder e foi saindo às pressas da cozinha antes que Carolina tentasse uma conversa, a qual, ela não tinha a menor vontade, mas Carolina a seguiu e foi logo interpelando-a sem dar chances de escapulir daquele encontro.

– Até quando irá fugir de mim?

– Até quando eu viver. Respondeu sem virar as costas.

Carolina adiantou-se e parando bem à sua frente falou grosseiramente em tom de ignorância.

– Pois eu minha amiga, não irei desistir de ti, enquanto eu viver.

– Minha amiga? Como se atreve chamar-me de amiga depois de tudo que fizeste comigo?

– Larissa, por favor, escute-me, pois tenho muito a dizer-lhe.

Larissa simplesmente ignorou a moça e dando-lhes as costas retomou seu caminho.

– Muito bem Larissa, como vai ser? Vai parar um minuto para me ouvir ou terei que explicar-me na presença de todos? A escolha é sua, mas hoje não desistirei de falar contigo. Sei que cometi muitas falhas, mas o seu comportamento não tem nada de louvável. Não é mesmo?

Larissa nada respondeu apenas seguiu para o jardim e sentou-se. Não estava nem um pouco preocupada com o que iriam pensar sobre ela, porém não queria que soubessem de seus segredos, pelo menos, enquanto não tomasse uma decisão , além disso sentia-se muito fraca e precisava sentar para recuperar o fôlego.

– Maria, traga um chá com bolachas para a senhora e depois não deixe que ninguém nos incomode. Ordenou Carolina.

Apesar dos protestos irritadiços de Larissa, Carolina se manteve firme e aguardou que se alimentasse para continuar sua conversa. Não arredaria pé daquele lugar antes de dizer o que precisava ser dito.

– Já estou bem, desta forma diga-me logo o que tem a dizer. Sua presença me enoja e não estou com paciência para aturá-la. Começou Larissa.

– Sei que está muito aborrecida comigo e com Giuliano e não tiro sua razão. Erramos sim e nosso comportamento não foi lá muito digno, mas por favor Larissa, deixe-nos ajudá-la. Sabemos que enfrentará tempos difíceis sozinha e com um filho sob sua responsabilidade. É o mínimo que podemos fazer para corrigir nossa falha.

– Acho muito engraçado! De repente os dois, que em nenhum momento pensaram no absurdo que cometeram, agora querem ser meus anjos da guarda, além isso se acham no direito de decidir como deverá ser minha vida.

O silêncio de Carolina deixou-a ainda mais irritada e ela continuou a falar.

– Por acaso já pensaram que talvez eu não queira assumir sozinha a responsabilidade sobre esse filho, mesmo porque, eu não o fiz sozinha. Ainda que Genaro não tenha conhecimento, mas ele é o pai dessa criança e vocês, por conta e risco já o excluíram de minha vida. Agora me diga, essa decisão cabe a vocês?

– Não. Essa decisão não cabe a nenhum de nós, ela é sua com toda certeza, mas o que pretende fazer?

– Ainda que eu já tivesse decidido, provavelmente não iria dividir com nenhum dos dois. Ainda espera, depois de apunhalar-me pelas costas, que tenhamos o mesmo relacionamento de outrora e como colegiais sentemos juntas para pentear nossos cabelos e confidenciar nossos segredos?

– Não realmente não espero que assim seja, sei perfeitamente que muita coisa mudará entre nós e só o tempo poderá, quem sabe, resgatar e trazer de volta o que já fomos. Tampouco me intrometerei na sua decisão, mas tenha cuidado, Genaro não presta e não mede as consequências quando se sente pressionado. Esse casamento com a herdeira paulista foi planejado há muito tempo, é sua tábua de salvação e ele não irá permitir que ninguém se meta em seu caminho.

– Nossa! Agora vejo que você o conhece muito bem, não é Carolina? Tem conhecimento, inclusive, dos detalhes sobre seu futuro. Agora estou aqui a pensar: será que assim como fez comigo, também não o ajudou a desenhar o seu projeto milionário enquanto se enfiava embaixo de seus lençóis?

– Muito bem, Larissa! Estou tentando reparar um erro cometido. É certo que não agi bem com você, mas diga-me uma coisa: acaso foste eu a buscá-la na sua casa para, também, se enfiar embaixo dos lençóis dele?

– Como disse estou apenas tentando ajudá-la. Sei que errei com relação à você, mas não lhe dou o direito de ficar julgando-me. Diga-me no que é diferente de mim?

Para Carolina aquela conversa era muito difícil, por isso mediante o silêncio da amiga, respirou fundo e continuou com o seu discurso.

– Da mesma forma que você, eu também sofri uma grande traição, porém minha cara, eu me envolvi por que estava perdidamente apaixonada por ele, e você envolveu-se por que? Por dinheiro e ganância. Portanto se temos que julgar atitude e moral não será a minha a mais duvidosa.

– Você tinha a obrigação de alertar-me sobre sua índole.

– Ah! Claro deveria ter dito a você: tome cuidado ele é esperto, talvez não consiga aplicar seu golpe ou até quem sabe deveria ter colaborado mais com seu plano sórdido e escolhido outro babaca mais bonzinho que caísse na sua lábia e você se desse bem. Ora, faça-me o favor Larissa, de vítima você não tem nada e, na verdade, você só está magoada porque levou uma rasteira e perdeu a grande oportunidade de se dar bem.

– Isso é você quem está dizendo porque ainda não me dei por vencida. Terei o que é meu por direito, por bem ou por mal.

– Pense bem Larissa porque desta vez você está por sua conta e risco. Ninguém a ajudará nesta loucura. Genaro é muito perigoso. Reconstrua sua vida ao lado do teu filho. Pense nele em primeiro lugar.

– Filho? Nem sei se o quero. Hoje entendo o que minha mãe sentia quando queria arrancar-me de dentro dela, porque hoje tudo o que queria era arrancar de dentro de mim esse intruso que tomou minha vida sem pedir licença.

– Pelo amor de Deus Larissa, não faça isso e pense nas suas palavras e atitudes.

– Não faça isso Larissa, não faça aquilo. Quem vocês pensam que são para ficar me ditando ordens. Não sei mesmo o que decidirei sobre minha vida, tampouco sobre a vida dessa criança, mas sei que neste momento não a quero.

– Só te peço que pense bem. Você mais do que ninguém sabe o que significa ser rejeitado por sua mãe.

–  Já disse e vou repetir mais uma vez para que não resta dúvidas. Seja lá o que eu fizer será por eu escolhi que assim fosse e não levarei em consideração nada do que vocês estão tentando me convencer.

– Desejo apenas, sua tola, que jamais carrega na alma uma decisão monstruosa como essa, pois não tem ideia o peso da culpa em tirar a vida de um inocente por causa de escolhas mal feitas.

– O que está querendo dizer?

Que não tem um dia nesta vida que eu não me arrependa por ter sido convencida por aquele enganador e concordado a arrancar de dentro de mim o filho que esperava. Que não tem um dia nesta vida que eu não sinta vergonha de minha atitude. Que não tem um dia nesta vida que eu não me arrependa de me entregar nas mãos daquele charlatão, que além de assassinar meu filho, tirou-me a oportunidade de ser mãe novamente.

-Eu sei a dor e peso que isso representa em minha vida. Pense bem, Larissa vai querer conviver com isso?

– Você não consegue viver com isso? Então também posso.

– Sabe Larissa começo a achar que não é assim tão diferente de Genaro. Eu me deixei levar porque o amava, mas você não. Eu engravidei porque não me cuidei porque era muito jovem e nem sabia me cuidar, mas você não.

Carolina endureceu seu tom de voz porque sabia que era necessário.

– A cada momento mais me convenço que, como todas as suas ações, essa gravidez também estava planejada, ainda assim te imploro, pense bem o que fará de sua vida. Pense como vai querer ser lembrada: como uma boa mãe que se redimiu de seus erros ou como uma monstra que é o que se tornará se levar adiante esses planos medonhos. Tenha pena dessa criança.

Olhando a cara de deboche de Larissa Carolina perdeu o senso de caridade.

– Mas talvez você tenha mesmo razão: o melhor é que essa criança nem a conheça, isso evitará que esse pobre inocente se transforme numa réplica sua e de sua mãe. Deus tenha piedade de vocês.

Larissa ficou assustada com as palavras de Carolina e as palavras fugiram de sua boca e ela ficou apenas observando a amiga retirar-se, em silêncio, da sua presença.

Capítulo XII – Quando a traição vem da melhor amiga

Veja o capitulo XII : Cidade Grande

https://www.laircecardoso.com.br/lairces-do-brasil/cidade-grande/

Sobre o Autor: Lairce Cardoso

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Nasci no berço da família Cardoso, na cidade de Paranapuã, no interior de SP no dia 15 de Julho de 1.963. Sou a nona filha do Senhor Libério e da Dona Lindaura.

Comentários (1)

Léo alvarenga Responder

?cada vez melhor!

14 de janeiro de 2020 at 19:32

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