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Lairce Cardoso

LUTO: LIDAR COM A DOR E A AUSÊNCIA

1 de maio

O luto é o tempo par aprender a lidar com a dor e a ausência dos que amamos. É um tempo que precisa de respeito e compreensão.

Os dias seguintes após o falecimento de Rute foram se arrastando lentos e doloridos. Apesar do apoio e ajuda dos amigos Larissa sentia-se perdida. Precisava retornar com urgência às suas atividades, primeiro porque era sua fonte de renda, e depois porque precisava respirar outros ares que amenizasse aquela dor horrível cravada em seu peito.

Infelizmente não era só ela que estava sofrendo, o filho exigia a presença da mãe, vinte e quatro horas por dia. A morte da avó afetara Emílio profundamente.

Ele tinha se tornado uma criança triste não queria ir à escola porque dizia que ninguém saberia contar as histórias que a avó contava pelo caminho. Mal se alimentava e os poucos tempos de sono era muito agitado.

Larissa em vão tentou explicar porque a avó tinha falecido, mas nada era aceito por ele. Algumas vezes, irritava-se com as explicações da mãe e saia resmungando que ela não sabia nada. Para ele tudo era confuso e assustador.

Estava considerando seriamente a possibilidade de uma ajuda profissional, pois não sabia mais como lidar com aquela situação. Além de toda dificuldade emocional do filho, ainda tinha que resolver as questões práticas, como explicar a ele que teria que ficar com uma pessoa estranha ou numa escola integral, porque não poderia ficar o tempo todo com ela, pois dela dependia as finanças da casa.

Era muita coisa para aquela criança sofrida absorver de uma vez só. Era muita separação, para aquele coração sofrido aceitar.

O seu coração estava partido, sentia-se impotente mediante o sofrimento do filho e pela primeira vez sentiu o peso de criar um filho sozinha. Sua mãe, mesmo nos tempos mais difíceis nunca a deixou sozinha, mas agora tudo estava solto no ar, não sabia por onde começar, só sabia que precisava achar uma saída.

E naquele dia, foi mais uma frustante tentativa de que o filho se alimentasse e, novamente ele deixou extravasar toda sua dor em forma de fúria.

– A sua comida não tem cheiro bom e nem é gostosa como a da vovó. Gritou ao sair batendo os pés e em seguida a porta do quarto, provavelmente por lá passaria todo o resto do dia.

Naquela tarde ela estava tão exausta, após as malcriações de Emílio, que simplesmente levantou-se e como o filho, dirigi-se ao seu quarto e se jogou na cama.

– Só queria sair daqui quando achasse uma saída para essa amolação que se tornou minha vida. Pensou e fechou os olhos esperando um consolo de qualquer lugar, podia ser até do céu, mas que viesse.

O cansaço físico e mental era tanto que adormeceu e de repente, sem imaginar quanto tempo havia se ausentado da presença do filho, acordou assustada com um barulho horrível vindo da direção do quintal.

– Que é isso? Que barulho é esse? Meu Deus acho que perdi a noção do tempo e dormi demais. E assim pensando, levantou-se e às pressas saiu para o quintal a fim de certificar-se o que estava acontecendo e chegando à porta, sentiu seu sangue congelar nas veias, ao assistir a dramática cena à sua frente.  

Emílio estava com a machadinha, que ele e a avó usavam para cuidar da horta, em suas mãos e com uma fúria inexplicável para uma criança tão doce e pequena, arremessava o instrumento com toda sua força nas plantas arrancando-as do chão.

Chorava copiosamente e dizia umas palavras que Larissa não conseguia entender, mas sabia que era pura dor. Ele já tinha destruído praticamente toda a horta que cuidava com muito zelo e amor com a sua parceira.

Larissa ficou ali parada por alguns instantes, sem saber o que fazer. Sentiu-se penalizada pela dor do filho e, saindo do transe pegou outra machadinha e se juntou à Emilio e, só quando não tinham mais forças, caíram exaustos no chão, abraçados e sofridos.

Larissa ficou ali abraçada ao filho, deitada na terra misturado com as verduras e outas plantas, totalmente destruídas.  Chorou com o filho até acabarem as lágrimas e, então a dor no peito parecia que tinha ficado mais leve. Ela abraçou e cobriu de carinho aquele serzinho indefeso.

– Querido – disse ao filho – eu também estou sofrendo muito, mas jamais conseguirei, nem em um milhão de anos, saber como é essa dor que está aqui dentro de você.

Ele a olhou e com uma expressão muito tristonha deixou extravasar todo o seu sofrimento.

– Perdoe-me mamãe, não queria fazer você sofrer. Eu sei que você não teve culpa da vovó ter morrido, ninguém tem, eu sei. Mas não é justo. Eu a amava tanto, ninguém será como ela.

– Não mesmo meu amor! Ninguém será como ela. Mas ela não iria querer te ver sofrendo assim. Ela confiava tanto em ti. Lembra-se?

– Sim. Ela dizia que eu era seu melhor amigo.

– E era mesmo. E será sempre. Ela não estará mais fisicamente entre nós, mas poderá encontrá-la, todas as vezes quiser, bem aqui dentro do seu coração, especialmente quando se lembrar de todas as coisas ela que te ensinou.

– Será que ela ainda me ama?

– Ela nunca deixará de ter amar, meu querido!

– Estou falando agora depois que eu acabei com a nossa horta. Eu não queria fazer isso, mas eu estava muito bravo. Acho que ela está muito triste comigo.

– Não se preocupe, meu bem, ela saberá entender o que aconteceu. Mas sabe de uma coisa, não precisamos deixar a horta destruída, vamos replantá-la em sua homenagem. Que tal?

Ele deu um largo sorriso e depois de dias de sofrimento, Larissa viu um tiquinho de esperança voltar no rosto de seu filho.

– Você pode chamar Giuliano para nos ajudar? Ele sabe onde comprar as verduras e as outras plantas. Ele levava eu e a vovó para comprar.

– É mesmo? Perguntou surpresa. Não sabia dessa história, vocês são danados. Sim, o chamarei para nos ajudar, mas amanhã, porque agora sabe o que vamos fazer? Vamos tomar um banho, tirar essa sujeira toda do corpo, fazer uma comidinha gostosa e depois vamos descansar porque amanhã teremos muito o que fazer.

À noite quando Larissa colocou o filho para dormir, deitou-se a seu lado e de repente, sentiu um grande alívio. Beijou-lhe a fronte e silenciosamente agradeceu.

– Obrigada meu amor! O que seria de mim sem você.

A manhã estava animada e quando Giuliano chegou, Emilio já estava à postos para explicar o que tinha acontecido.

– O que houve por aqui? Acaso passou algum terremoto nessa casa?

– Um não, dois.  Respondeu. Um chamava Emílio e outro Larissa. Explicação dada, saiu correndo em direção ao portão. Vamos gente, senão não vai dar tempo de fazer tudo hoje.

Giuliano fez um gesto com a mão para que Larissa o acompanhasse e, quando ela passou por ele tentou explicar os furacões de Emilio.

– Outra hora, com mais calma, te explicarei.

– Acho que não precisa. Já entendi tudo. Só me conta os detalhes, que esses vou querer saber. Disse rindo ao acompanhá-la em direção a Emilio que clamava impaciente por eles.

Ao contrário dos dias anteriores aquele foi bem divertido. Havia uma euforia e ansiedade estampada nos rostos de todos. Cada um deles tinha um motivo em especial para a reconstrução daquele espaço.

Emílio, esperava pelo perdão da avó, Larissa pelo resgate da infância do filho e Giuliano pela esperança de fazer parte, para sempre, da vida daqueles dois seres, os quais ele amava loucamente.

Emílio discutia a seleção das sementes como gente grande. Demonstrava conhecimento sobre o plantio das verduras e das hortaliças, as suas combinações, os produtos necessários para uma vida útil saudável, as plantas de sombra e de sol, de vento ou de brisa.

Larissa estava boquiaberta com a desenvoltura do filho, além da cumplicidade entre os dois, conversavam sobre o assunto como se tivessem feito aquilo juntos durante a vida inteira.   

– Como você sabe de tudo isso, meu filho? Perguntou quando se dirigia para mais um sessão de compras.

– Ora, mamãe, estudando! Respondeu com uma naturalidade, como a questioná-la: Como é que você não sabe disso?

– Estudando? Respondeu, manifestando ignorância no assunto.

– É, estudando. Como você acha que a nossa horta era tão bonita e dava tantas verduras. Eu a vovó e o Giuliano estudávamos sobre isso. Por isso aprendi.

Um misto de emoções passou pelo coração de Larissa. Percebeu que sua mãe fora mais importante na vida de seu filho que tinha imaginado, por isso o sofrimento de sua perda era tão violento; que Giuliano era mais presente em sua família que se dera conta e, sentiu uma pontinha de tristeza.

Ela esteve ausente em alguns momentos tão importantes mas não havia reparado isso na correria do dia a dia.

– Por favor, não vá desenvolver nenhum complexo de culpa agora. Você estava cuidando do bem estar dele. Não confiou essas tarefas nas mãos de qualquer pessoa, mas de alguém que amava e que poderia confiar nos ensinamentos dos valores e preceitos da vida: sua mãe.

De novo, Larissa assustou-se. Como ele poderia saber o que ia em seu coração e na sua mente. Sentiu uma urgência gigantesca de se aproximar muito daqueles dois, senão, provavelmente, perderia muito.

Já era quase noitinha, quando finalmente conseguiram convencer Emilio que não daria para terminar tudo naquele dia. Giuliano contou uma história que as plantas não gostavam de se mudar durante a noite, que elas precisavam de luz do sol para sua nova morada.

Ele se deu por vencido, porém pela cara que fez, foi mais por piedade daqueles dois, do que por acreditar na história. E, os dois riram de sua estupidez.

– Você criou um monstrinho e agora quer enganá-lo. Riu ao se despedir de Giuliano, que havia se comprometido a voltar no clarear do dia seguinte para dar cabo naquele projeto, com a urgência que se fazia necessário.

Dois dias depois, a visitação da horta de Emilio foi o fenômeno mais comentado entre os amigos e vizinhos. Ele pousou para fotos, explicou sobre o plantio, a irrigação e tudo mais, deixando claro, que aquela horta exigia muito respeito. Tinha até nome e, como era esperado, em homenagem à amada avó: Horta da Vó Rute.

A mãe, não cabia em si, tamanho o orgulho de seu pimpolho. Estava feliz por ter acreditado e patrocinado aquele momento especial na vida de seu filho.  Estava exausta por conta da correria daqueles dias e da organização da inauguração do projeto de Emilio, apoiado integralmente por Giuliano.

Ah! O Giuliano.

Fora, pessoalmente entregar os convites que ele e Giuliano desenhara e, não obstante o cansaço, estava muito feliz. Era magnifico ver o renascer do filho depois de tanto sofrimento. Mais uma vez seria eternamente grata àquele homem, pelo desprendimento em querer ajudá-los.

– Acho que você poderia, pelo menos, disfarçar o olhar de cobiça para cima do italiano. Disse Marion divertida.

– Do que está falando, sua louca? Lá vem você com seus comentários.

– Comentários? Sinceramente, não sei por quem está babando mais, se pelo filho ou, pelo deslumbrante ajudante do filho.

Larissa fuzilou Marion com os olhos e virando-lhe as costas, saiu pisando duro, deixando a amiga falando sozinha.

– Vai, bicho do mato, quando não aguentar mais você se rende. Marion riu divertida, pois tinha certeza que a amiga tinha escutado sua observação, mas como de costume fingiu ignorância.

Emílio já estava dormindo. Quando a mãe o colocou na cama e não questionou absolutamente nada. Apenas dormiu, tamanha a exaustão física e emocional.

Já era bem tarde da noite, quando Larissa e Giuliano, terminaram de organizar a bagunça depois da festa. Estava muito cansada, mas tinha valeu a pena cada gota de seu suor.

– Então, já decidiu quando vai conversar com ele? Perguntou Giuliano, encostado no canto da parede da cozinha.

– Estou pensando em falar amanhã. Vou aproveitar essa fase de alegria, mas pretendo tomar muito cuidado para não estragar nada. Preciso que ele entenda que se faz necessário minha volta ao trabalho. Tenho certeza que juntos acharemos uma solução.

– Também acredito nisso, até porque Emilio é mais esperto do que imagina.

– É. Deu para notar nesses dias. Talvez eu não conhecesse todo o potencial do meu filho. Sei que já falou sobre isso, mas de alguma forma, fiquei um pouco decepcionada comigo sobre isso.

– Não se cobre tanto mulher! Não dá para mudar o que já aconteceu. Melhore o que der para ser melhorado e viva um pouco mais. Não se culpe tanto pelas coisas. Você está fazendo um trabalho maravilhoso. Não pense que seu filho não busque inspiração em você, ele a tem como a pessoa mais incrível do mundo. Diz isso para qualquer um que pergunta sobre você.

– Verdade? Perguntou com os olhos brilhando.

– Verdade, e eu também te acho incrível.

E, antes que ela dissesse alguma coisa, aproximou-se e a abraçou, envolvendo-a por inteira entre seus braços fortes. Larissa sentiu-se maravilhosamente aconchegada e, deixou-se ficar naquele abraço, desejando ficar ali para sempre.

Quando se separam, estavam tão próximos que Giuliano sucumbiu ao restinho de preocupação que sentia e beijou-a com sofreguidão, sendo, a princípio, correspondido por ela.

De repente, Larissa soltou-se e sem entender porque, aplicou uma bofetada atingido em cheio o rosto de Giuliano. A atitude da moça o pegou de surpresa e ele segurou com força o braço dela, olhando-a firme nos seus olhos, deixando claro que havia arrependido amargamente do seu gesto. Depois soltou-a e virando as costas, saiu da casa, batendo a porta atrás de si.

Larissa ainda estava atordoada com sua atitude. Não conseguia entender porque tinha agido daquela forma. Estaria ficando louca.

Quando se deu conta, que ele não estava mais ali, saiu correndo para tentar se desculpar, mas ele já tinha desaparecido de sua vista.

– Meu Deus! Não é possível tanta estupidez num único ser. O que foi que eu fiz?

E passou mais noite em claro, remoendo a sua atitude inesperada e desiquilibrada.

Capítulo XXVIII – Luto: lidar com a dor e a ausência

Quer me conhecer melhor? Assista ao vídeo “Quem sou eu” https://www.laircecardoso.com.br/quem-sou-eu

Sobre o Autor: Lairce Cardoso
Lairce Cardoso

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Nasci no berço da família Cardoso, na cidade de Paranapuã, no interior de SP no dia 15 de Julho de 1.963. Sou a nona filha do Senhor Libério e da Dona Lindaura.

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