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IRMÃOS DE SANGUE: ENRICO E EMÍLIO

29 de maio

O encontro dos irmãos de sangue: Enrico e Emílio foi assunto para vários dias e noite, até a efetivação da esperada reunião.

Era noite de verão e a lua estava escandalosamente linda. O jantar escolhido por Emílio foi um churrasco no quintal. Larissa quis retrucar, mas o olhar de Giuliano era o suficiente para ela entender que eram jovens e o jantar era deles. 

Emílio fez questão de acompanhar os pais em todos os preparativos para a noite, a alegria estava estampada na sua cara e no largo sorriso, que deixava à mostra os belos dentes e a covinha que se formava na face. 

Motivo de disputa entre as adolescentes de sua idade, Emílio era tão belo quanto o pai e a beleza era a única coisa que herdara. 

Enrico chegou acompanhado da mãe, trazendo nas mãos um presente para irmão, que fora cuidadosamente escolhido depois da investigação com Giuliano sobre as suas preferências. 

Os dois se abraçaram emocionados e, num segundo depois, conversavam animados como se tivessem vividos juntos por toda a vida. 

– Obrigado por atender ao meu pedido e me receber sem julgamentos ou preconceitos. Por favor, prometa-me que, aconteça o que acontecer, nunca mais nos separaremos – disse Enrico.  

– Claro que não. Somos irmãos. O que aconteceu entre nossos pais não é da nossa conta, o importante é que está aqui. Sempre quis ter um irmão. 

– E eu então! Podemos combinar para você ir passar uns dias na minha casa para conhecer como eu vivo. Se a sua mãe deixar, é claro. 

– Da hora! A gente pode combinar nas férias. Dobrar Dona Larissa não vai ser fácil, mas eu chamo o super Giuliano, que ele sabe como domar a fera. 

Os dois caíram na risada. 

– Se meus avós tivessem te conhecido, iam falar pra lavar a boca com sabão. Eles não gostam de gíria. 

– Fala sério! Minha avó era muito maneira, minha melhor amiga, mas, infelizmente, ela morreu já faz uns anos. E vocês, moram com seus avós? 

– Não. Eles mudaram para a Europa faz uns dois anos. Por causa do meu pai e das discussões que tinham com minha mãe por causa dele. Mas eles não são nada divertidos. São muito arrogantes. Querem que eu vá morar com eles, mas não quero ir. 

– Claro que não deve ir. E sua mãe, quem vai cuidar dela? 

– É, você falou bem, alguém vai ter que cuidar muito dela. Minha mãe está muito doente. Ela tá com câncer. Tem pouco tempo de vida, segundo os médicos. 

– Puxa vida! Sei como se sente. Fiquei quase louco quando minha avó morreu. Nossa, você nem imagina o trabalho que dei pra minha mãe, coitada. 

Emílio contou ao irmão o episódio da destruição da horta e como foi a reconstruiu com a ajuda dos pais. 

– Depois disso, nunca mais deixei de cuidar da Horta da Dona Rute. Até dá para doar hortaliças e verduras. Levo para uma casa aqui perto que cuida de crianças abandonadas. 

– Que legal! Você tem uma vida tão diferente da minha. Dinheiro não nos falta, mas, em compensação, alegria passou longe daquela casa. 

– Pois então vamos fazer diferente. Você vem passar as férias aqui. Cara, não acredita nas coisas que este maluco do Giuliano inventa. Ele é da hora e você vai gostar dele pra caramba. Pode apostar.

A interação entre os demais participantes da festa não foi tão animada quanto a dos dois meninos. Giuliano ocupou-se do churrasco e, vez ou outra, trocava uma breve palavra para ver se animava as duas mulheres, porém, elas apenas respondiam direta e polidamente suas perguntas e encerravam a conversa. 

Também ele desistiu de continuar uma conversação amistosa e decidiu, assim como as duas, ser apenas expectador dos dois meninos, que estavam felizes, e a conversa entre os dois fluía naturalmente. 

Quando terminou o churrasco, os dois jovens resolveram traçar os planos para as férias, avisaram que iriam entregar o projeto pronto e que aguardassem. Larissa convidou a todos para um café para aguardar o projeto dos filhos e foi neste momento que Gabriela resolveu se abrir com o casal. 

– Gostaria imensamente de agradecê-los por atender ao pedido do meu filho. Era muito importante pra ele. 

– Você não precisa agradecer. No fim, vejo que fizemos a coisa certa. Estão felizes e acredito que serão amigos pra sempre – disse Larissa. 

– Sim. Quero aproveitar a oportunidade para pedir-lhe perdão por todo mal, ainda que indiretamente, que lhe causei. Hoje, quando olho para trás, arrependo-me de muitas coisas que fiz pela defesa de um homem cruel e covarde como Genaro. Mas eu estava cega de paixão e não conseguia enxergar um palmo à frente do meu nariz. Embora isso não justifique tudo, mesmo assim, me perdoe. 

– Justifica, sim. Sei o que viveu. Apesar de não ser apaixonada por ele, sei a dor de ser usada por aquele homem. Há muito já a perdoei. Nada tenho nada contra você, na verdade, nem contra ele.  Ele foi digno de pena. 

– Parabéns pelo seu desprendimento. Foi isso que a fez trilhar por um caminho mais alegre, diferente de mim, que não consegui ter a mesma leitura e me enterrei em mágoas e tristezas. 

– Mas ainda dá tempo de recomeçar. Tem um filho maravilhoso, ainda é jovem, tem muita vida pela frente ainda. Tudo é possível. 

– Infelizmente não, Larissa. Estou muito doente. Estou com câncer e, segundo os médicos, o diagnóstico é muito cruel. Pela medicina, não tenho muito tempo de vida. 

Larissa e Giuliano se olharam e emudeceram. Não acharam palavras para consolar Gabriela. 

– Não sei se é pedir demais – continuou Gabriela –, mas, por favor, não abandonem Enrico. Ele é muito só. Infelizmente, minha família virou as costas pra mim por causa da proteção a Genaro e, consequentemente, a ele por me proteger. 

– Meu Deus! E seus pais? Hão de querer apoiá-lo. 

– Não. Eles não fazem nenhuma questão. Hoje, moram na Europa e mal se lembram que têm um neto. Também Enrico não tem nenhuma afinidade com eles. Não quererá ir viver com eles. 

Novo silêncio. Larissa tentava achar as palavras certas para o momento, mas não conseguia raciocinar direito. Aquilo era muito desatino. Num dia atrás, nem sabia da existência de Enrico e hoje, pedem que o aceite em sua família. Não conseguia respirar direito. 

– Gabriela, todas essas informações são muito repentinas e não é de estranhar que estejamos assustados. Mas ainda teremos tempo para conversar e nos acertar quanto ao seu pedido. Mas, de pronto, pode ficar despreocupada que Enrico terá nossa proteção – disse Giuliano. 

Larissa apenas o olhou agradecida pela interferência. 

– Não tenho mais muitos bens, meus pais praticamente me deserdaram e o restante Genaro dilapidou com suas desordens, mas ainda deixarei finanças para manter Enrico por um bom tempo. Ele apenas necessitará de orientação. 

– Não se preocupe, estaremos aqui. 

Emílio e Enrico entraram pela sala adentro numa folia sem fim, contanto os planos para os próximos meses e o projeto de férias, interrompendo aquela conversa pesada e tristonha. No fundo, todos respiraram aliviados.

CAPÍTULO XXX – IRMÃOS DE SANGUE: ENRICO E EMÍLIO

Quer me conhecer melhor? Assista ao vídeo “Quem sou eu” https://www.laircecardoso.com.br/quem-sou-eu 

Sobre o Autor: Lairce Cardoso
Lairce Cardoso

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Nasci no berço da família Cardoso, na cidade de Paranapuã, no interior de SP no dia 15 de Julho de 1.963. Sou a nona filha do Senhor Libério e da Dona Lindaura.

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