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Lairce Cardoso

ENTRE SEGREDOS E MENTIRAS

3 de janeiro

Com as recomendações médicas devidamente prescritas Larissa acompanhou Genaro, sem entender porque o fazia e tampouco para onde ia, sabia apenas que estava mortalmente envolvida com aquele homem num enredo composto entre segredos e mentiras.

Sentada no banco do passageiro do automóvel, que a levou em outras oportunidades para encontros inesquecíveis, permaneceu calada durante todo o trajeto. Não conseguia sequer formular as perguntas em seus pensamentos tamanha a confusão que sentia naqueles dias.

Olhou pelo canto dos olhos para Genaro e ele dirigia como se aquele carro sempre o pertencesse, mas também estava calado e pelo seu semblante podia-se notar que estava agoniado. O que o atormentaria?

Silenciosamente percorreram por ruas que ela não conhecia até chegarem a uma elegante residência onde Genaro, educadamente, estendeu a mão para ajudá-la a descer do carro, exatamente como Giuliano fazia. Ela fuzilou-o com o olhar e saltou do carro ignorando a mão estendida à sua frente.

Ficou parada em frente ao imóvel imaginando de quem seria aquela propriedade e quando virou-se para questionar Genaro já havia se afastado e conversava com uma mulher na porta de entrada da casa. Demorou um pouco para que Larissa a reconhecesse , mas logo que a identificou, aproximou-se furiosa.

– O que essa mulher faz aqui? Perguntou exaltada.

– Ora minha querida que modos são esses? Como pode tratar sua mãe dessa maneira. Não queria que eu a abandonasse sozinha, não é mesmo?

– Abandonar? Do que está falando, seu louco? Larissa gritou sem entender nada.

– Acalme-se meu bem! Disse tranquilamente para o desespero da moça.

– Eu conversei muito com sua mãe e embora ela admita que tenhamos sido muito afobados, entendeu que os arroubos e paixão da juventude nos pregou uma peça. Mas ela sabe que estou aqui para redimir tudo.

– Antes que eu enlouqueça, diga-me, do que está falando?

– Não se preocupe nunca a deixarei só. Ficarei a seu lado e cuidarei de tudo. Por isso acredito que não faz mais sentido continuarmos longe um do outro.

Larissa continuou perplexa sem entender onde aquela conversa iria chegar e ele continuou com seu estranho discurso.

– Pedi à sua mãe e ela concordou em nos ajudar neste momento difícil até nos adaptarmos. Com licença, vou ver se os seus aposentados já estão prontos conforme ordenei pois você precisa descansar. Lembre-se das recomendações médicas.

Genaro virou as costas e entrou na casa deixando as duas na entrada da casa.

– Então foi assim que se garantiu seu futuro? O golpe da barriga. Sua sorte é que esse tonto parece gostar mesmo de você. É você deve ter trabalhado muito bem para deixa-lo assim, comendo na sua mão. Disse Rute com um tom de Ironia.

– Tive aula com uma mestre e aprendi com perfeição a seduzir. Mas não se dê por rogada e tome muito cuidado. Como você percebeu ele está disposto a atender as minhas necessidades , portanto se assim eu desejar, posso fazê-lo mudar de ideia a seu respeito e tenho certeza que ele mesmo atirará seus trapos junto com você no meio da rua. Logo, enquanto estiver por aqui, não me faça ter o desprazer de conviver com a sua presença e nem de ouvir sua voz. Finja que é surda e invisível. Não me provoque!

Aquilo já estava passando dos limites precisava descobrir o que estava acontecendo, caso contrário, iria enlouquecer, assim pensando Larissa entrou para a casa a procura de Genaro deixando a mãe boquiaberta com seu falatório.

Embora o casarão se mostrasse imponente era nítido o seu abandono e ainda que necessitasse de muito investimento e uma boa reforma a elegância da construção saltava aos olhos.

Os móveis em estilo colonial antigos e belíssimos eram verdadeiras raridades. Eram rústicos e muito elegantes e o coração de Larissa disparou quando os analisou com mais cuidado. Tinham o mesmo padrão dos móveis do apartamento de Giuliano.

As combinações das cores e dos tecidos e toda a ornamentação daquela sala gigantesca era como uma réplica do apartamento que ela conhecia muito bem. Adorava aquele lugar onde se encontrava, entre segredos e mentiras com o namorado. Tudo decorado com bom gosto e refinamento exatamente como naquele lugar. É claro que aquela casa pertencia a Giuliano.

Da bela sala de estar tinha uma saída ao um requintado e aconchegante jardim onde as plantas e flores, cuidadosamente escolhidas, atribuíam graça e beleza natural à casa. Lá do meio da sala Larissa avistou Genaro acomodado à uma cadeira, no meio do belo jardim, examinando alguns papéis.

Essa casa é de Giuliano, não é? Disse de modo súbito e inesperado, assustando Genaro que entregue a análise dos documentos em suas mãos, não percebeu a aproximação de Larissa.

Vamos parar com toda essa encenação e conte-me de uma vez o que significa tudo isso e onde está Giuliano. Ordenou muito irritada.

O rapaz olhou-a por um minuto procurando as palavras certas para as explicações cabíveis, mas não encontrou nenhuma forma de suavizar a situação por isso respondeu sem rodeios.

– Bem à sua frente! Mas na verdade deve estar querendo saber sobre Genaro, que neste momento, deve estar aproveitando sua viagem de núpcias com uma milionária paulista.

– O que você está querendo dizer não estou entendendo nada? Disse Larissa, quase gritando tamanho o seu nervosismo.

Realmente temos muito a conversar, mas peço que se acalme pelo seu bem e de seu filho. Por favor, sente-se e não me interrompa, falarei tudo de uma vez como pediu.

Larissa aceitou a cadeira oferecida e sentou-se tentando se acalmar, mesmo porque suas pernas estavam trêmulas e não conseguiam mantê-la mais em pé. Ela tremia feito vara verde.

– O seu amante e pai de seu filho chama-se Genaro Conti. Eu sou Giuliano Ferrero e trabalhei por muitos anos para a família Conti.

– Não pode ser! Você está querendo me enlouquecer, além do mais Carolina me apresentou a Giuliano. Disse Larissa atônita com a informação que acabara de receber

– Pedi que não me interrompesse, por favor, deixe-me continuar.

– Assim como você e tantas outras mulheres, Carolina foi ludibriada por ele e viu na sua vontade de se dar bem na vida a oportunidade para vingar-se dele. Todas as mulheres que se aproximavam dele, o faziam porque se apaixonavam-se perdidamente, por causa de sua beleza e de se talento em envolvê-las. Elas se derretiam por causa de seus galanteios e ele pintava e bordava com todas elas, mas você não o amava queria somente se dar bem.

– Era a pessoa perfeita para colocá-lo em seu devido lugar.  Ela acreditou que você o conquistaria, prejudicando-o nos planos de casar-se com uma das herdeiras mais rica de São Paulo

-No fundo, achava que vocês dois eram farinha do mesmo saco, que tinham pensamentos iguais e igualmente eram mal caráter, pois vislumbravam unicamente o desejo de se dar bem financeiramente. Portanto, juntos iriam amargar pelas más escolhas.

-Embora, seja muito tarde, ela percebeu a diferença de um e de outro e está muito arrependida de ter agido como o fez.

– Sempre vivi ao lado de Genaro e ainda que eu tente não conseguirei enumerar a quantidade de golpes amorosos aplicados por ele. Ele nunca enxergou numa mulher mais que cama e diversão. Brincou com muitas delas. Sentia-se o máximo destruindo os corações e tantas vidas.

– Confiava no seu charme e na sua astúcia, mas tinha um coisa que aquela mente vazia nunca gostou: seu nome.Achava que Genaro não tinha o mesmo charme que Giuliano, por isso, emprestei-lhe meu nome para suas aventuras.

– No início foi divertido e riamos muito, coisas de jovens levianos. Ademais, nas suas aventuras amorosas sempre sobrava alguma amiga para me divertir também. E a princípio, como já disse, isso acontecia uma vez ou outra, não via tanto mal.  

-Mas depois a brincadeira foi ficando cada vez mais amiúde e me dei conta do mal que provocávamos e me senti incomodado. Então prometi pra mim que não iria mais participar daquelas trapaças e o proibi de usar meu nome, e naquele baile ele jurou que com você seria a última.  

– Arrependi do combinado e tentei desfazer o engano, mas Carolina convenceu-me a esperar um pouco mais. Contou-me de seu plano e assim como ela achei que vocês se mereciam. E, acredite, arrependo mortalmente, de não ter, pelo menos, tentado demovê-la desse plano que já estava falido antes mesmo de começar.

– No início me divertia a ideia de vê-la toda imponente, achando que estava abafando, tentando dar um golpe no mais elegante falido da história.

– Imbecil, deveria ter pesquisado melhor. Como podia ser tão estupida? Pensei algumas vezes o vê-la tão sedutora e segura de si .

-Já faz algum tempo que os pais de Genaro não bancam mais suas despesas, mesmo porque ele, praticamente, dilapidou toda a fortuna da família com mulheres e jogatinas. Apostar era seu maior prazer. A gota d’água foi o investimento milionário naquele carro de corrida que levou a família quase a falência total.

– Mas, isso não é possível . E, os treinos, os investimentos e patrocinadores? Comentou Larissa.

– Como eu já disse você foi ingênua demais. Alguma vez acompanhou Genaro aos seus treinos? Pois deveria ter ido.  

– Ele nunca sentou-se no banco daquele carro. Os patrocinadores eram os amigos babacas que acreditando na sua lábia perderam muito dinheiro e agora nem tem como cobrar, porque muito deles o faziam às escondidas, pois os pais nunca aprovariam tal façanha.

– Ele usava os supostos horários de treinos e de seus emburramentos para buscar novas aventuras, embora já estivesse com o casamento marcado muito tempo antes de te conhecer. E, se não conseguiu adivinhar ainda, o casamento foi exatamente no dia do seu imaginário jantar de noivado.

-Na noite anterior depois de suas despedidas, ele viajou para São Paulo e casou-se, numa cerimônia luxuosíssima, no sábado à tarde.

– Isso é mentira! Isso não tem sentido porque ele me amava. Gritou Larissa quase que num surto de desespero.

Giulliano jogou o jornal sobre a mesa e estampado em letras garrafais na primeira página trazia o anúncio do mais novo casal de milionários paulista. E, lá estava ele, lindo e radiante ao lado da bela noiva que agora era sua esposa.

Larissa leu e releu a notícia ainda descrente do que via escrito.

– Aqui diz o mais novo casal de milionários, então essa sua informação não procede, ele também tem dinheiro. Disse com a voz trêmula.

– Pelo amor de Deus! Isso é a única coisa que importa? Dinheiro?

– Não ele não tem, mas assim como você ela está grávida. Só que com ela tem uma diferença, esse enlace foi tudo muito planejado pelos dois, pois os pais não aceitaram esse casamento , mas ela é claro, está apaixonada pelo traste. E, afim de evitar escândalos tudo parece um conto de fadas.

– E, você cara mia se teve a mesma ideia mas tentou fazer surpresa a ele, irá provar o gosto ruim de sua amarga decisão.

Larissa engoliu em seco, sentindo de verdade, o gosto amargo da traição em sua boca.

– É claro que não planejei nada disso, ter filhos nunca fez parte de meus planos eu só fiquei sabendo que estava grávida no mesmo dia que vocês. Meu Deus! Isso não pode estar acontecendo comigo. Como pude ser tão ingênua.

O silêncio se fez por uns instantes e Giuliano se calou-se esperando que ela conseguisse se recompor. No fundo sentia muita pena dela.

Após um longo tempo Larissa quebrou o silêncio.

– E, você o que tem a ver com tudo isso? Porque foi até minha casa e porque está aqui?

– Não sei se deveria entregar-lhe, mas aqui está o bilhete que ele escreveu para se despedir. Não nutra muitas esperanças, ele só o fez porque Carolina o ameaçou de contar tudo a você e juntas acabar com a sua festa.

– Ela me pediu que eu entregasse a você e juntos iríamos contar a verdade a você. Fiquei rodando pelas ruas, carregando aquelas flores e o bilhete de Genaro e nunca me senti tão mau e não queria continuar me envolvendo nessa história.

Quando cheguei à sua casa não sei o que aconteceu comigo, mas quando apareceu à porta nunca vi uma mulher tão linda e tão estúpida ao mesmo tempo. Não tive coragem de entregar as benditas flores, tirei o bilhete e pensei em acalmá-la primeiro e depois quando estivesse melhor conversaríamos, mas aí aconteceu tudo o resto.

– Me sinto culpado por ter compartilhado com Genaro tanta desventura e depois sei o quanto sua mãe a condena, por isso, resolvi ajudá-la embora, ainda acredite que nada justifique suas atitudes.

– E as suas atitudes? Tem algo que as justifique? Quem é você para falar de minha moral? Eu, pelo menos se provoquei algum mal, foi só a mim mesma.

Giulliano se desculpou envergonhado.

– Tem razão por isso resolvi ajudá-la. Pensei nessa criança que carrega em seu ventre. Ele não tem culpa nenhuma das besteiras cometidas por nós.  Sei o que é crescer sem o apoio dos pais., não porque eles tenham me abandonado, mas eles morreram quando eu era bem pequeno e meus familiares, alegando que não tinha como sustentar mais um filho, entregou-me para adoção, o que infelizmente não aconteceu. Vivi até os dezoito anos de orfanato em orfanato e quando sai de lá, me arranjaram um emprego com a família Conti.

– Não sei se quero a sua ajuda. Se Genaro tem dinheiro cobrarei dele a responsabilidade de cuidar do filho.

– Não se meta com esse homem Larissa. Ele não vale nada e não medirá as consequências, especialmente se sentir-se acuado.

– Sinceramente não sei em que você é diferente dele. Porque devo aceitar sua ajuda e não a dele. Porque devo acreditar em você, também não o conheço, e como bem disse no início dessa conversa absurda, é preciso pesquisar bem e isso não sei e nem quero fazer.

– A decisão é sua Larissa. Mas pense nessa criança antes de decidir qualquer coisa.

– Como irá me bancar se até agora disse que era empregado de uma família falida. Não teve ter dinheiro nem para se sustentar. A propósito, porque está com o carro e na casa de Genaro. Por que essa casa é dele, não é?

– Não! Essa casa, o carro e o apartamento onde se encontravam não é dele. É da família. O pai de Genaro doou esses bens para pagar as dívidas de salários e de alguns fornecedores fraudados pelo filho.

– O apartamento e o carro já estão vendidos e vou entregar hoje mesmo para quitar os salários dos empregados. Essa casa está sendo analisada por um grupo de empresários, que tem interesse em investir para construir um hotel. Se eles fecharem negócio dará para quitar a todos que foram enganados.

-Se não vamos ficar aqui porque nos trouxe para cá? Além disso, se sabe tudo de mim, sabe que não planejo mais viver na companhia de minha mãe. Porque tomou as decisões sem consultar-me? Como ousou intrometer mais uma vez na minha vida assim?

– Tem razão deveria ter pensado melhor. Mas, mais uma vez Carolina convenceu-me. Ela também quer muito ajudá-la pois não se cabe em remorsos, por isso achou que se as tirássemos daquele casebre, poderíamos dar a vocês a chance de se reconciliarem.

– Com um pouco de dinheiro que tenho, mais a venda da casa de vocês e com o que Carolina se propôs a ajudar, poderão comprar outro lugar com espaço para seu filho crescer e juntas poderão recomeçar.

– Você e Carolina! Que bela dupla de covardes vocês dois formaram., primeiro me jogaram no precipício e depois em segredo resolveram pelas minhas costas me ajudar e inclusive, como deverá ser minha vida.

 –  Não quero nenhuma ajuda de vocês. Por ora, vou descansar um pouco, estou me sentindo muito cansada. Com calma, pensarei no que vou fazer. Mas, não quero ver a cara de nenhum de vocês. Por favor, esqueçam que eu existo ou melhor ainda, finjam que eu morri. Desabafou irritadíssima.

Larissa retirou-se e Giuliano jogou-se na cadeira exausto por causa daquela conversa. Não sabia como conseguiria, mas iria ajudar Larissa ainda que ela não quisesse, mas não a deixaria sozinha.

Era o mínimo que poderia fazer por ela e seu filho, sentia muito mal por ter provocado tantos danos à sua vida, ainda que forma indireta, quando apoiou as mentiras de Genaro.

Capítulo XI- Entre segredos e mentiras

Veja Capítulo XII – Quando a traição vem da melhor amiga

https://www.laircecardoso.com.br/romanceando/quando-a-traicao-vem-da-melhor-amiga

Sobre o Autor: Lairce Cardoso

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Nasci no berço da família Cardoso, na cidade de Paranapuã, no interior de SP no dia 15 de Julho de 1.963. Sou a nona filha do Senhor Libério e da Dona Lindaura.

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