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Lairce Cardoso

O TRISTE MOMENTO DA DESPEDIDA

24 de abril

O triste momento da despedida. Entre as dores que mais dói está a dor da despedida de quem se ama.

Larissa decidiu que pelo bem de sua mãe, o melhor seria atender ao seu pedido e nos dias seguintes resolveu proporcionar a ela dias mais leves e serenos ao invés de ficar brigando com o mundo e contra Deus.

Assim, planejou com Emílio atividades que envolvessem a todos. E ainda que os dias que lhes restassem fossem poucos, esses seriam inesquecíveis. Quando a tristeza e a incerteza eram mais forte que seu desejo, ficava por instantes isolado dos dois e entregava sua dor nas mãos do Senhor. Suplicava por sua caridade e sabedoria.

Era incrível como aqueles momentos de oração e de entrega a transformava e ela voltava inteira para os grandes amores de sua vida.

Embora se sentisse perdida como num labirinto, sentia-se livre das correntes que a aprisionava em seus medos. Nunca sentiu-se tão corajosa. Não os deixaria só.  

No início, quando seus olhos cruzavam com os da mãe ela os evitava, era dolorido demais. Mas aprendeu com a dor a ser mais tolerante, sensível, delicada e inspiradora. E quando seus olhares se cruzavam ela o sustentava, e neles havia tanto amor que não precisava dizer em palavras o quanto a amava.

Foram nesses dias que, apesar de todo sofrimento, Larissa deu um salto gigantesco em direção a vida.  Ela compreendeu que, ao contrário do que sempre imaginou, não poderia mudar as pessoas, os acontecimentos e tampouco as tribulações, antes era preciso mudar sua atitude perante essas situações. E, foi exatamente isso que fez, mudou sua postura de sofrimento e revolta para um comportamento mais humano, cheio de fé e confiança mediante aquela triste realidade.

Naquela manhã levantou muito disposta e confiante. Nos dias anteriores Rute tinha apresentado uma melhora significativa. Estava muito animada e até havia se alimentado um pouco mais.

– Viu! Eu tinha certeza que era só cansaço. Veja como ela está bem melhor esses dias. Disse a Giuliano que, apenas a olhou, mas resolveu calar-se. Não queria tirar as suas esperanças, mas era nítido que Rute estava se esforçando além de seus limites para deixar, a filha e o neto, felizes.

Queria despedir-se em meio a dias de alegria, como ela mesmo lhe confidenciou.

Conforme já haviam combinado, preparou Emílio para um passeio com Giuliano , pois Carolina a acompanharia numa consulta da mãe com um novo especialista.

Depois de todas as recomendações, abraços e beijos Emílio saiu para o passeio esperado e comentado durante toda a semana. Giuliano se tornou um especialista em arrancar risos daquela criaturinha especial.

Emílio era uma criança de luz, sua sensibilidade era aguçada e ainda que não comentasse nada, seus olhos captavam o estado de ânimo dos adultos à sua volta. Estava sempre atento aos detalhes do dia-a-dia. Ainda muito cedo deixava bem claro nos seus gestos, toda gentileza e cordialidade de sua alma.

Larissa, às vezes assustava-se com os comentários que fazia, era maduro demais para sua idade e quanta compaixão tinha pelos mais desfavorecidos, desde os animais até os seres humanos. Não se sabia, se o fato devia-se ao amor que sentia pela avó, mas a sua delicadeza com os idosos era de emocionar.

Por isso, aquele passeio foi providencial. Ele precisava respirar ares diferentes e com seus iguais, precisava brincar com outras crianças. Apesar dos últimos dias terem sido mais leve, ainda assim havia no ar toda tensão e preocupação natural da situação, facilmente captado pela alma sensível de Emílio.

A algazarra acabou e a casa ficou estranhamente silenciosa. Larissa olhou para a Rute sentada à sombra do belo limoeiro que ornamentava o quintal. Estava tão frágil que ela teve vontade de pegá-la no colo e acalantar como fazia com seu pequeno, quando cantava para ele dormir.

– Quanto custa esse pensamento Dona Rute? Perguntou entre um sorriso que arrancou do fundo da alma.

– Estou aqui a agradecer por tantas bênçãos alcançadas em minha vida. Tive a oportunidade de consertar tanto desacerto que causei ao longo de minha vida que nada mais preciso. Como é bom ter uma alma leve.

– Sim. É muito bom sentir-se uma pessoa do bem. Também sinto-me renovada a cada manhã. E, ainda preciso agradecê-la por muitos anos, por ter aberto meus olhos para isso. Te amo muito mãe. Serei eternamente grata a ti, pela pessoa que me ajudaste a ser.

Larissa abaixando-se abraçou-a como nunca fizera antes.  Havia tanto amor naquele abraço que as duas permaneceram ali, nos braços uma da outra por um longo silêncio, e naquele instante ficou muito evidente para ambas que, o melhor abraço é aquele que em silêncio consegue expressar um mar de palavras, que nenhum linguajar conseguirá traduzir o mesmo significado.

Tentando disfarçar a emoção e as lágrimas que rolavam pela face, Larissa desenroscou dos braços da mãe e acariciou levemente sua face.

– Também te amo muito minha filha. Obrigada por ser a luz da minha vida.

– Bom Dona Rute, já nos paparicamos bastante, agora vamos nos preparar. Daqui a pouco Carolina vira nos buscar para a consulta com aquele médico que te falei.

– Sim, minha querida. Se essa é sua vontade, então cumpramos.

– Muito bem, acho que deve ser assim mesmo. Vou preparar seu banho e já venho buscá-la. Enquanto isso curta mais um pouquinho desse solzinho delicioso.

Rute beijou as mãos da filha e deu um leve sorrisinho concordando com a sua proposta.

Larissa entrou rapidamente na casa, e um sentimento de melancolia tomou conta de seu coração, mas ela tentou não prestar atenção a ele, entrou no quarto da mãe, escolheu vestimentas e calçados, separou os produtos de higiene pessoal e foi levá-los ao banheiro.   

Ao chegar na porta do quarto, sentiu um aperto tão forte no peito que ficou difícil de respirar, deixou cair todas as coisas que estavam em suas mãos. Sentiu as pernas bambearam e o tudo despareceu de sua vista por uma fração de segundo, precisou se apoiar para não ir ao chão. Lentamente foi respirando devagar, o ar foi voltando e o peito ficou menos apertado.

Com o coração aos pulos, ela correu até a porta que saia para o quintal e ficou paralisada por uns instantes, depois ainda titubeando sem acreditar no que via e sem forças caiu de joelhos aos pés de Rute.

– Por favor, mãe! Não faça isso comigo. Não vá, agora não. Ainda preciso muito de ti.

E ficou ali deitado no chão nos pés de Rute até ouvir a voz de Carolina.

– Venha, minha querida! Fique em paz. Ela queria partir assim, sem dor ou sofrimento. Larissa consentiu com um aceno de cabeça, embora não tivesse ouvido uma só palavra que a amiga tenha dito.

Capítulo XXVII – A DOR DA DESPEDIDA

Quer me conhecer melhor? Assista ao vídeo “Quem sou eu” https://www.laircecardoso.com.br/quem-sou-eu

Sobre o Autor: Lairce Cardoso
Lairce Cardoso

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Nasci no berço da família Cardoso, na cidade de Paranapuã, no interior de SP no dia 15 de Julho de 1.963. Sou a nona filha do Senhor Libério e da Dona Lindaura.

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