Blog Lairce Cardoso

Lairce Cardoso

A INESPERADA DOENÇA DE RUTE

11 de abril

A inesperada doença de Rute tirou Larissa do prumo, especialmente quando o assunto veio à tona com uma conversa com o filho.

– Mamãe, você trouxe o remédio da vovó?

– Que remédio Emilio? Do que você está falando?

– Hoje a tarde a vovó nem quis cuidar da horta. Disse que estava com dor de cabeça e ficou só sentada na sombra. Falei para ela tomar um remedinho pra dor de cabeça. Ela falou que tinha acabado. Então falei que ia pedir para você e ela disse que já tinha pedido pra você trazer.

– Ora, Emilio, acontece. Às vezes ficamos mesmo com dor de cabeça e não queremos fazer algumas coisas. Isso também acontece com você quando fica com febre. Lembra-se? Vai ver a vovó estava cansada.

– É mais ela tem ficado cansada muitas vezes. Tem dia que nem quer mais ir na praça.

– Como assim? Nunca percebi nada disso. Tem certeza?

– Ela disfarça quando você chega. Não sei não, mas acho que às vezes ela fica com um pouquinho de preguiça e fala que está com dor de cabeça para eu não perturbar ela.

A princípio Larissa achou graça, da conversa do filho, depois sentiu-se um pouquinho culpada. Às vezes quando o cansaço batia, ao chegar em casa no fim do dia, quando ele exigia sua presença nas brincadeiras, para não desapontá-lo dizia que estava com dor de cabeça. Nunca passou pela sua mente que o filho já tinha notado que aquela era uma desculpa para não atender aos seus pedidos.

Bem dona Larissa! Essa foi a deixa do seu filho se emenda e trata de ser mais honesta com ele. Pensou silenciosamente.

Na hora do jantar, falando sobre os acontecimentos do dia, se deu conta que não ouviu a voz da mãe em nenhum instante. Olhando pra ela sentiu uma pontinha de preocupação acelerar seu coração. Ela, de fato, estava abatida. Será que estava acontecendo alguma coisa com a mãe e ela não tinha percebido?

Só então se deu conta que ela andava mesmo um tanto mais silenciosa nos últimos dias, mas achou que era cansaço físico e no fundo deveria ser isso mesmo. Emílio tinha energia para dez e a mãe já não tinha mais idade para acompanhar tanto dinamismo.

Mais tarde, quando Emilio já estivesse na cama, como de costume iria conversar com ela. Na verdade, já tinha percebido que se fazia necessário alguém para ajudá-la nas tarefas domésticas e nos cuidados com Emilio, mas não quis falar nada para não melindrá-la. Mas talvez aquele seria o momento ideal.

Aquela noite, estranhamente Emilio demorou para pegar no sono. No começo Larissa quase perdeu a paciência com o filho, mas depois notou que ele estava incomodado com algo que não sabia explicar. Parecia que não queria dormir, embora estivesse cansado.

– Filho! O que está incomodando você? Porque não quer descansar, já está tão tarde.

Ele enroscou no pescoço da mãe e só então ela percebeu que seu coração estava acelerado. Sentiu seu corpinho trêmulo. Assustada, Larissa aconchegou-o em seu colo e o abraçou forte tentando acalmá-lo.

– O que aconteceu meu amor? Porque está tão assustado?

– Estou com medo do Papai do Céu levar a vovó para morar com ele. Se ela mudar pra lá não vai poder mais brincar e nem cuidar de mim. E, desatou a chorar, deixando livre o sentimento de dor que estava apertado no peito.

– Meu Deus! Filho de onde tirou essa conversa. A vovó não vai a lugar nenhum. Ela está só um pouquinho cansada, mas vamos dar um jeito nisso. Vou arrumar alguém para ajudá-la. Vai ficar tudo bem, não se preocupe.

– Não, mamãe, ela vai se mudar sim. Eu sei.

– Mas como você? Quem te falou isso?

– Outro dia eu sonhei que eu chegava da escola e ficava procurando a vovó por todos os cantos da casa e não conseguia encontrá-la. Então comecei a chorar e aí uma moça, me disse que eu não me preocupasse, que ela estava bem, mas que ela precisou se mudar. Que o Papai do Céu tinha dado outra casa pra ela. Por isso que eu não gosto mais dele e não quero mais rezar pra ele, porque ele quer levar a vovó de mim. Por favor, mamãe não deixa. Eu amo a vovó.

– Querido, que moça é essa? Perguntou Larissa assustada.

– Não sei, nunca a vi. Ela era boazinha. Cantou pra mim, mas não quero que ela leve a vovó. Repetiu entre prantos.

– Meu amor! Disse Larissa, com o coração aos pulos – Foi apenas um sonho. Nada irá acontecer com a vovó. Às vezes temos sonhos assim e ficamos com medo, mas com o passar dos dias a gente acaba esquecendo e tudo volta ao normal. Verá que daqui a alguns dias tudo será como antes. Não precisa se preocupar.

Mas mamãe quando eu contei esse sonho para a vovó, ela me abraçou e disse que se o Papai do Céu quiser levar ela para morar com Ele, não é para eu ficar bravo. Que todo mundo um dia vai morar com Ele, que talvez esteja mesmo chegando o dia dela. Aí eu disse que então eu queria mudar com ela. Ela disse que ainda não é meu tempo nem o seu. Que eu tenho que ficar aqui para te proteger e te ajudar.

– Mas eu não quero que ela vá – continuou Emílio, sem poder controlar o pranto.  Por favor, mamãe, prometa que vai fazer alguma coisa. Que vai conversar com o Papai do Céu para esperar um pouco mais e só levar a vovó quando puder nos levar também.

Larissa sentiu seu corpo trêmulo. Não era possível que aquilo estava acontecendo. Como não tinha percebido esses acontecimentos dentro de sua casa. Como poderia sua mãe ter tido essa conversa com Emílio, uma criança, assustando-o daquele jeito e não ter dito nada a ela.

Tratou de se acalmar, depois passaria um sermão em Dona Rute, mas agora precisava acalmar o filho. E depois de muita conversa e muitas promessas, ele finalmente se acalmou e pegou no sono. Ela permaneceu no quarto do filho por mais um tempo, tentando colocar sua cabeça em ordem. Não conseguia raciocinar com clareza.

E só depois que Emílio adormeceu tranquilamente, saiu à procura da mãe. Avistou-a sentada no banco do jardim da entrada da casa e sentiu o coração na boca, quando seus olhos encontraram com o dela. Não precisou dizer uma só palavra pra confirmar o drama do filho.

Ela aproximou-se, sentindo o corpo tremer dos pés à cabeça, não conseguia achar as palavras para iniciar aquela conversa, ficou apenas em silêncio.

– Você – iniciou Rute – vai precisar ajudar seu filho a compreender as coisas da vida. Não o deixe revoltar-se contra Deus.

– Pelo amor de Deus! Pare com esse mistério. O que está acontecendo? O que está escondendo de mim?

– No início era apenas um mal estar, depois passou a ser uma fadiga constante e agora essa tosse que não há meio de curar. Logo depois que você foi para São Paulo, me senti muito fraca e quase nem tinha vontade de me alimentar, perdi bastante peso, mas achei que era por conta de toda a situação emocional que estava vivendo naqueles tempos.

– Quando você voltou de São Paulo, e ainda estava em recuperação, tive uma crise repentina de falta de ar e por alguns dias quase nem conseguia respirar direito. Giuliano e Carolina me acudiram e me levaram a um médico. Ele pediu uma série de exames e então foi diagnosticado Fibrose Pulmonar.

– O que está me dizendo? Quer dizer que você está doente e não me contou nada, mas Giuliano e Carolina sabiam e também não me disseram nada. Com os dois eu me entendo depois, quanto a senhora, amanhã mesmo vamos procurar um especialista para resolver tudo.

– Filha! Giuliano e Carolina não te contaram nada atendendo a um pedido meu. Na ocasião eu não queria trazer mais preocupação pra você, era um momento muito delicado na sua vida. Você precisava de paz para tomar suas decisões.

– Eles não tinham que ter tomado nenhuma decisão sem falar comigo, eu sou sua filha. Isso é um absurdo. Com eles me entendo depois, quanto a senhora, se algo de mais grave lhe acontecer, não te perdoarei.  

– Estou morrendo, Larissa. Tenho pouco tempo de vida.

– Do que você está falando? Ficou louca? Já disse amanhã mesmo iremos procurar um especialista no assunto. Há de ter alguém que resolva isso. Não há mal que não tenha cura. Iremos buscar essa cura.

– Minha menina! Giuliano levou-me num especialista em São Paulo, mas infelizmente meu caso já estava bem adiantado, nem mesmo um implante resolveria o caso.

– Meu Deus! Isso não pode ser possível. Porque não me contou? Eu a teria poupado de tanto trabalho e poderia tratar-se adequadamente.

– Foi por isso que implorei sigilo absoluto dos dois. Você iria tentar buscar um tratamento, que infelizmente não traria êxito algum, mas com isso, também me pouparia de viver o que vivi por esses tempos com você e com meu neto.

– Provavelmente – continuou ela – eu não conheceria o prazer de ter sido avó por inteira, desta vez não poderia ser ninguém pela metade. Não teria tempo para reparar. E, por certo, não teria feito os pratos prediletos de vocês, não teria brincado e nem amado tanto vocês quanto amei.

– Isso não é justo! Agora que queremo-nos tão bem. Que vou fazer com Emílio? Tem ideia do quanto ele está sofrendo? Quando ia me contar sobre isso?

– Não ia te contar. Não queria que o restante de nossos dias fossem marcados pela expectativa de minha partida. Queria ir silenciosamente. Emilio é muito sensível e notou que não ando bem.

– E esse sonho? Que sonho é esse?

– Não sei minha querida! Mas aproveitei o momento para prepará-lo, com muita suavidade. Era isso que queria evitar a todo o custo. Não queria essa angustia no coração de vocês.

– Mãe. Ainda não me conformo com a atitude de vocês de esconderem essa gravidade de mim. Talvez juntas conseguíssemos buscar ajuda.

 – Por favor Larissa, respeite o meu desejo. Não se indisponha com ninguém, muito menos com Giuliano, tudo está como deveria estar. Ainda que vivemos intensamente por pouco tempo, o importante foi que vivemos. Você vai precisar ajudar seu filho e, peço-te encarecidamente, não deixe seu filho se revoltar contra Deus e nem você tenha essa atitude. Coloque a vida de vocês na mãos de Deus e peça que Ele os conduza em paz.

– Não se afaste de seus amigos. Eles amam a você e a seu filho. Mantenha-os por perto, eles são importantes pra vocês. Prometa-me isso?

– Não vou continuar essa conversa agora. Não prometo e não aceitei nada disso. Amanhã veremos o destino que iremos dar às coisas. Agora acho bom ir descansar. Está muito gelado aqui fora, precisa se cuidar.

Larissa ajudou a mãe e depois se recolheu e passou a noite em claro, não podia acreditar no que estava acontecendo. Como não tinha notado a gravidade de saúde de sua mãe?

Percebeu que ela havia perdido peso e que se alimentava bem menos. Às vezes via que estava cansada, mas acreditou quando disse que tinha decidido perder peso, pois seria mais fácil para cuidar do neto. Como tinha sido tola.

Mas no dia seguinte iria procurar ajuda, não poderia permitir que sua mãe fosse assim. Não agora que aprendeu a amar intensamente aquela criatura.

Capitulo XXV – A Inesperada doença de Rute

Quer me conhecer melhor? Assista ao vídeo “Quem sou eu” https://www.laircecardoso.com.br/quem-sou-eu

 

Sobre o Autor: Lairce Cardoso
Lairce Cardoso

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Nasci no berço da família Cardoso, na cidade de Paranapuã, no interior de SP no dia 15 de Julho de 1.963. Sou a nona filha do Senhor Libério e da Dona Lindaura.

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