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Lairce Cardoso

A GRANDIOSIDADE DO AMOR ENTRE IRMÃOS

22 de maio

A grandiosidade do amor entre os irmãos.

Larissa sentia-se plena e iluminada. Nos últimos anos sua vida deu uma guinada significativa. À princípio, ela e Giuliano passaram a morar juntos e, finalmente, por uma questão de proteção, resolveram oficializar sua união, numa cerimônia muito simples, com apenas a presença dos amigos queridos.

Apesar dos tropeços, como em qualquer começo de relacionamento, os dois evoluíram juntos e conseguiram transformar suas vidas com o generoso apoio mútuo entre eles. Além do amor que, juntos aprenderam a construir, se tornaram grandes amigos e parceiros de profissão.

Ele ainda dirigia o hotel que, a seu comando, se transformou num grande empreendimento hoteleiro, além de maior fonte de geração de emprego, mas agora ele era também, o maior investidor dos negócios de Larissa que, também, passou a ser forte motivadora de novos empregos.

Juntos, saíram do anonimato para serem pessoas importantes e ilustres na pequena cidade onde residiam desde que nasceram. Mas, embora todos os afazeres, não abriram mão do mais importante projeto que os uniu.

Assim embora trabalhassem muito, religiosamente praticavam exercícios físicos, que ela nunca mais deixou de fazer, cuidavam da horta que mantinham na casa que continuaram a morar, constantemente reuniam-se com os amigos e o mais importante tinham sempre tempo necessário para oferecer amor e carinho à Emílio.

Desde o casamento, apesar das várias e alegres tentativas para engravidar, não tiveram sucesso e apesar de ser um desejo dos dois, inclusive de Enrico, decidiram segurar a ansiedade e deixar que fluísse naturalmente no fundo, eles sabiam que a dificuldade da gravidez poderia ser resquício do passado, por causa de uma gravidez quase interrompida e não queriam trazer à tona um sofrimento desnecessário.

O amor que sentiam por Emílio os preenchia totalmente, além disso, viviam cercados de jovens querendo aprender com eles sobre profissão e outras coisas. Os dois passaram a ser fonte de referência da juventude. Então estava tudo certo, sentiam-se completos.

A campainha tocando insistentemente, tirou Larissa de sua concentração e até irritou-a com a impaciência, de quem quer que fosse.

– Meu Deus! Que povo sem paciência. Será que não podem esperar um minuto que seja?

Ao abrir a porta, já com o discurso na ponta da língua, Larissa calou-se, tamanho o susto que levou.

– Gabriela? Que faz aqui?

– Podemos entrar? Perguntou.

Larissa consentiu com a cabeça, dando espaço para que ela e o rapaz que a acompanhava entrassem e se acomodassem, sob o seu perplexo olhar.

– Você está muito bem. Linda como ainda me lembro de você. Disse Gabriela.

Larissa continuou em silêncio, esperando que ela dissesse o motivo daquela visita tão inesperada, assim como explicasse quem seria aquele rapaz, tímido e acanhado, que se sentou ao seu lado e mal levantou a cabeça.

– A senhora é mãe de Emilio? Não é? O rapazote, perguntou tímida e repentinamente, ao levantar a cabeça e olhar para Larissa.

– Sim! Respondeu estranhando a pergunta. Como sabe de Emílio?

– Nós somos irmãos senhora. Eu sou Enrico, filho de Genaro.

Larissa sentiu um nó na garganta e o sangue fugir de sua face. Como não tinha percebido a incrível semelhança daquele jovem com Genaro? A semelhança entre eles era perceptível a olhos nus. Ele tinha os mesmos cabelos e olhos negros, os traços marcantes do rosto, o mesmo porte físico e até o jeito de olhar era exatamente igual ao do pai.

Por um segundo ela sentiu-se incomodada com a presença do jovem à sua frente, esperando por uma resposta, como fazia Genaro. Por uma fração de segundos pensou que, já ouvirá falar várias vezes que com a convivência os filhos, ainda que não biológicos, se tornam parecidos com seus pais.

Essa constatação deveria ser verdadeira, pois Emílio, embora tivesse o mesmo genes de Genaro, era muito diferente de Enrico. A única semelhança era os olhos negros, no demais, até agora do que tinha de conhecimento eram muito diferentes.

– E o que quer? Perguntou refazendo-se do susto.

– Queria apenas conhecê-lo. Respondeu com firmeza.

– Porque? O que sabe sobre nós? Vocês podem até ser filhos do mesmo pai, mas a história de cada um, nada tem a ver com outro. Porque isso agora?

– Deixe-me explicar. Disse Gabriela. Perdoe Enrico, mas ele está muito aflito e ansioso por esse encontro.

– Na verdade – continuou ela – você tinha razão, quando tentou me alertar sobre Genaro. Ele de fato, era tudo o que me disse, mas na ocasião estava cega de paixão e, infelizmente não acreditei em você. Minha vida a seu lado se transformou num verdadeiro um inferno, mas por causa das conveniências, vivíamos de aparências.

-Foram tantas traições, mentiras, decepções que ele conseguiu apagar o brilho da minha integridade. A única coisa que me proporcionou muita alegria, fruto desse relacionamento, é meu querido filho. Ele sempre foi meu apoio, meu companheiro e a luz de minha vida. Só por ele não me atirei no mesmo lamaçal que ele vivia.

– Enrico, sempre soube da existência do irmão, mas Genaro nunca permitiu que ele o procurasse, embora sempre fosse sua vontade encontrar-se com o irmão. Ameaçava destruir a todos nós, inclusive a vocês, se nos misturássemos, como dizia ele. Na cabeça doentia dele, você e Giuliano traíram a ele. Porque ele era assim, tinha uma capacidade incrível de transferir para os outros os seus piores defeitos. Na verdade, nivelava a todos pelo o que ele era.

– Você só pode estar brincando? Disse Larissa incrédula. Nós o traímos?

– Sim, na verdade, ele não suportava a ideia de serem superiores a ele. Era somente isso, creia. Alguém tinha se saído melhor que ele e isso era duro de aceitar.

– Mas, se é como vocês estão dizendo, porque estão aqui? Ele não ficará sabendo?

– Faz um ano que meu pai morreu – explicou Emílio. Nada ficou comprovado, mas provavelmente foi algum acerto de contas. Eu e mamãe decidimos não investigar nada. Queremos viver em paz.

Apesar de conhecer toda podridão daquele homem, Larissa assustou-se com a notícia.

– Imagino. De fato não é nada difícil que isso tenha acontecido, levando em conta a pessoa que era.

– Por favor, senhora, queria apenas conhecer Emilio.

– Não sei. Não é tão simples assim. Emílio não tem conhecimento do pai. Pouco falei sobre ele. Quando criança fez alguns questionamentos, mas sempre deixei no ar. Depois se tomou de amores por Giuliano e nunca mais tocou no assunto. Sinceramente, não sei quanto será prejudicial trazer esse assunto à baila.

– Pode, pelo menos, pensar um pouco. Prometo que jamais procurarei por ele, ainda que esse seja meu maior desejo, se não houver a autorização da senhora. Gostaria muito de ter um irmão e não acho justo que a gente não se conheça, não temos culpa dos acontecimentos do passado.

– Você não tem outros irmãos? Ainda poderá ter se sua mãe quiser.

– Infelizmente não Larissa. Quando Enrico nasceu, Genaro me convenceu que não deveríamos ter mais filhos e, naquela ocasião ainda acreditava que vivia um conto de fadas, por isso aceitei operar para que não corresse o risco.

– É! De formas diferentes, mas aquele verme, deixou marcas irreparáveis em nossas vidas. Por causa das complicações com a gravidez de Emílio, provocadas pela atitude daquele traste, também provavelmente não poderei ter outros filhos, pelo menos, biológico não.

– Por isso, senhora, não acha que merecemos uma chance?

Havia tanta humildade no pedido de Enrico que Larissa se emocionou e imaginou que a semelhança deveria ser apenas física.

– Está bem! Vou pensar. Peço apenas que não me apresse. É uma decisão que necessita de muita reflexão.

– Muito obrigada senhora, agradeço de todo meu coração. Disse Enrico e levantando-se, num gesto de gratidão beijou suas mãos. Larissa não se conteve, a emoção falou mais alto e ela abraçou-o e pode sentir seu coração batendo acelerado dentro do peito.  

– Tenha certeza que pensarei, primeiro, em vocês dois.

– Muito obrigada Larissa. Disse Gabriela. Estamos hospedados no hotel da cidade. Já vimos Giuliano por lá, mas não nos aproximamos e nem o faremos, até que nos procure. Respeitaremos seu tempo. E mais uma vez, obrigada por nos receber.

Larissa acompanhou-os até o portão e como sempre fazia com a mãe, quando um assunto necessitava de muita atenção, sentou-se no banco no jardim para pensar. Estava atônita com tudo aquilo e não sabia o que pensar, mas Giuliano por certo a ajudaria tomar a decisão acertada.

– O que acha? Perguntou a Giuliano depois de colocá-lo ao par da visita inusitada que recebera à tarde.

– É uma situação delicada, mas sempre penso que a verdade prevalece a qualquer dor ou dificuldade. Ainda que não controle sobre o que irá acontecer, entendo que não deveria privar seu filho de saber sobre o irmão. É parte da história dele. A decisão de conhecer o irmão ou saber sobre o pai é direito dele. Como se sentiria se te privasse disso?

– Minha mãe nunca contou-me sobre meu pai. Te confesso, que embora compreendesse que ela tinha suas razões para isso, sempre me senti frustrada. Gostaria de saber, pelo menos, quem era ele.

– Pois bem, mire-se no seu exemplo.

– E se ele se magoar pelo fato de que, se soubesse do pai antes, poderia tê-lo conhecido. É isso que me preocupa.

– Pode ser que isso aconteça. Mas você conhece a bondade de seu filho, diga-lhe a verdade, ainda que o entristeça, o amor que une vocês será o suficiente para protegê-los.

– Meu coração fica dilacerado quando penso que não terei como prever a reação de meu filho frente a essa história. Sim, eu confio nele, mas nesse caso a dúvida é maior que a confiança.

– Larissa, minha querida, você não pode ter o controle sobre todas as coisas. Inclusive, sobre a decisão de revelar a verdade para seu filho. O controle sobre isso não te pertence. Lembre-se que ele não soube da existência do pai, porque ele não quis se fazer conhecido, ao contrário de Enrico, ele não deseja se manter desconhecido.

– Você acha que ele poderá procurar por Emilio mesmo sem minha autorização? Ele me prometeu que não fará isso.

– Eu acho que você não entendeu quando eu lhe disse que não poderá ter o controle sobre todos e todas as coisas, o tempo inteiro. Se for para Emilio ter conhecimento sobre o pai e conhecer o irmão, acredite, isto irá acontecerá de um jeito ou de outro. Então porque não, ser através de quem o ama.

– Vou pensar sobre isso. Ainda não sei.

– Lembre-se! É direito dele e se o ama verdadeiramente não o prive de seus direitos. Sei que achará uma saída, a seu modo. Confie. Você não perderá o amor de seu filho, se contar ou não, mas assim como você, ele poderá carregar uma frustração no peito desnecessária se não o fizer.

– Eles estão hospedados no hotel? Você sabia.

– Sim, sou o gerente de lá.

– Porque não me contou.

– Acaso lhe conto quais hóspedes estão instalados no hotel? E, antes que retruque, até saber dessa história, eles eram simplesmente hóspedes.

Encerrou a fala e deu-lhe um beijo na testa, ela tentou ainda argumentar, mas o olhar dele, deixou claro que aquele assunto já estava encerrado. Agora a decisão estava em suas mãos, e se ela se conhecia bem, aquela seria uma longa noite.

Emílio chegou em casa depois de suas atividades escolares e encontrou a mãe, sentada à sombra do limoeiro, olhando para o horizonte, como a esperar por uma resposta. Ele já conhecia aquela expressão e sorrindo beijou-a na face.

– Oi Dona Larissa. Qual é a bola da vez?

– Bola da vez? Perguntou retribuindo o beijo carinhoso do filho.

– É! Tem alguma coisa perturbando a sua cabeça. Conheço esse olhar do tipo: e agora o que eu faço? 

– Santo Deus! Até você. Não basta Giuliano e Marion, dizerem que fico com expressão de cachorro que caiu da mudança, quando não sei o que fazer ou dizer.

Emílio caiu na risada.

– Pra você ver como te conhecemos. Mas alguma coisa que te faça ficar sem saber o que fazer ou falar, deve ser um babado forte.

– Babado? Falou brincando. É meu filho é um babado forte. Há alguns dias gostaria de contar-lhe um segredo, mas não consigo achar as palavras para isso.

– Que tal começar dizendo “filho preciso te contar um segredo”. O resto vem, disse rindo. Emílio, de fato, era muito espirituoso e humorado. Estava sempre de bem com a vida.

Sim, talvez era assim mesmo que deveria faze. Transformar aquele momento em algo simples. Bom, tentaria.

– Está bem! Queria falar com você sobre seu pai biológico e sobre seu irmão que conheci essa semana. Disse rápido e diretamente.

Emilio sentou-se no chão ao lado da mãe, e silenciosamente, ouviu todo segredo que ela queria lhe revelar. Ao término da sua explanação, Emilio olhou para a mãe, levantou-se e deu-lhe um abraço bem apertado e depois voltou ao seu lugar.

– Obrigado mãe, por ter me dito a verdade. E meu irmão onde está? Quero muito conhecê-lo, sempre quis ter um irmão. Como ele é? Tomara que seja legal?

Larissa suspirou aliviada e pensou que, de novo, Giuliano tinha toda razão, não se pode ter o controle sobre tudo. Ela jamais imaginaria aquela reação do filho, apesar de saber do quanto tem um bom coração, estranhou apenas que não tivesse perguntado nada sobre o pai, apenas ouviu, mas se ele não perguntou, não seria ela a continuar falar sobre Genaro.

– Ele está hospedado no hotel. Podemos marcar lá ou então fazer um jantar para ele aqui. O que prefere?

– Acho que o jantar em casa. Os seus jantares especiais são de cair o queijo e também acho que aqui é mais tranquilo.

– Está bem! Marcarei com eles para amanhã.

– Mal posso esperar! E saiu saltitando pelo quintal e de repente parou e voltando para ela, também revelou-lhe um segredo.

– Mãe, me desculpe também tenho um segredo para te contar. Eu já sabia de meu pai. Mas se ele não quis me conhecer eu, só respeitei a vontade dele e daí também perdi a vontade de conhece-lo. Depois quem tem Giuliano como pai para que vai querer um Genaro. Ih! Acho que te deixei sem fala, de novo.

E entrou para a casa, sem olhar para atrás para ver a expressão de surpresa da mãe.

– Eh! Dona Rute. Tá para nascer outra como você. Falou, olhando para o firmamento à espera de uma resposta da mãe.

E, levantando entrou para a casa, tinha um jantar muito especial para preparar.

Quer me conhecer melhor? Assista ao vídeo “Quem sou eu” https://www.laircecardoso.com.br/quem-sou-eu

Sobre o Autor: Lairce Cardoso
Lairce Cardoso

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Nasci no berço da família Cardoso, na cidade de Paranapuã, no interior de SP no dia 15 de Julho de 1.963. Sou a nona filha do Senhor Libério e da Dona Lindaura.

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