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Lairce Cardoso

NINGUÉM AINDA ESTÁ SATISFEITO

27 de maio

De fato, ninguém ainda está satisfeito. Em alguns momentos isso é muito triste, mas por outro lado em alguns, Graças a Deus, que a insatisfação se faça.

Satisfação do cliente: como garantir com um bom atendimento - Terceiriza  Astral

Depois de um tempo afastado fisicamente dos amigos, não apenas por conta da pandemia mas também pelo ritmo de uma nova escolha de vida, eu e meu marido resolvemos nos encontrar numa pequena reunião com outros casais. Confesso que à principio relutei um pouco sobre a ideia, porém devido a insistência me deixei levar. Afinal que mal poderei ter esse encontro, já que eram meus amigos? Decerto seria bom. Contudo, logo depois de um breve bate-papo a conversa acabou direcionando para um lado que não me agradou. Estava em pauta a desobediência dos filhos dos filhos, a rebeldia dos adolescentes e outros babados. E, claro não poderia faltar o “Cristo”, sim, porque sempre tem um a ser crucificado. Então, a conversa também em algumas pessoas do nosso meio de convivência, apesar de minhas infrutíferas tentativas para mudar o rumo da prosa.

No momento em que a conversa partiu para este lado, me senti um tanto decepcionada, pelos menos pra mim, tinha aceito o convite, apenas com a finalidade de jogar conversa fora e rir um pouco. Tudo bem, poderíamos até organizar um evento (apesar de achar que não daria certo), com o fim de nos apoiar, mas neste momento, sinceramente não queria bancar a senhora do destino de ninguém, tampouco clinicar . Mas, por mais que me esforçasse ainda gastou-se muito tempo no diagnóstico da vida alheia, para o meu gosto.

A gente muda a visão, ainda bem

Seja como for, de uns tempos pra cá minha visão à respeito das pessoas mudou muito. Antigamente apenas pensava, agora com toda a certeza, sei que sair por aí analisando atos, pensamentos e olhares de outras pessoas é muito perigoso e até desumano. Porém como estava em minoria, naquele momento, achei melhor me calar. Talvez num outro momento deixasse minha opinião escandalizá-los, mas naquele momento, estava mesmo a fim de uma boa taça de vinho.

Logo que o dia amanheceu, pensando no motivo da conversa da noite anterior, que se prolongou por tempo demais, pelo menos para o meu gosto, me lembrei porque havia tomado umas tacinhas de vinho a mais. Ri divertida, e pensei que enfim, o assunto se deu por encerrado, caso contrário, provavelmente entraria num coma alcoólico.

Fiquei com medo

Mas ao mesmo tempo fiquei gelada, de ainda muitos de nós, ter a capacidade em apontar o dedo, sem dó nem piedade. Fiquei imaginando que é bem provável que não tenham aprendido nada depois de tantos acontecimentos sofridos, enfrentados na maioria dos lares, em todo o mundo, especialmente nesses nos últimos tempos.

Acreditar que tem o direito de julgar o outro, da maneira que lhe der na telha, simplesmente porque o meu achômetro diz que ele ou ela não está no caminho certo, é muito perigoso. Sinceramente fiquei com medo. Pensei que conhecia aquelas pessoas, contudo vejo que realmente não sabemos nada de ninguém. É verdade, não sabemos nada nem de nós mesmos. Pode ser que há algum tempo, eu também, não só estivesse apontando meu dedo, como também achando soluções da pobre moça, desnudada na nossa roda de conversa.

Por mais que tentasse achar motivos para a justificativa do pessoal, aquilo me incomodou demais.

Logo depois do almoço com a família, num momento de descanso, ao folhear um livro, por acaso (ou não) me deparei com essa crônica da Martha Medeiros. Ufa, obrigada. Era exatamente isso que queira dizer para os desavisados que acreditam que sabem tudo dos outros. Parece que ela fotografou o meu momento. Por isso, resolvi dedicar essa crônica à todas as meninas, mulheres, ou a qualquer um, que se jogam no sofá, porque estão insatisfeitos.

Já estive nesse sofá

O sentimento de não pertencer – Gisele Psicóloga

“Era uma festa familiar, dessas que reúnem tios, primos, avós e alguns agregados ocasionais que ninguém conhece direito. Jogada no sofá, uma garota não estava lá muito sociável, a cara era de enterro. Quieta, olhava para a parede como se ali fosse encontrar a resposta para a pergunta que certamente martelava em sua cabeça: o que estou fazendo aqui? De soslaio, flagrei a mãe dela também observando a cena, inconsolável, ao mesmo tempo em que comentava com uma tia: “Olha pra essa menina. Sempre com esta cara. Nunca está feliz. Tem emprego, marido, filho. O que ela pode querer mais?”

Nada é tão comum quanto resumirmos a vida de outra pessoa e achar que ela não pode querer mais. Fulana é linda, jovem e tem um corpaço, o que mais ela quer? Sicrana ganha rios de dinheiro, é valorizada no trabalho e vive viajando, o que é que lhe falta?

Imaginei a garota acusando o golpe e confessando: sim, quero mais. Quero não ter nenhuma condescendência com o tédio, não ser forçada a aceitá-lo na minha rotina como um inquilino inevitável. A cada manhã, exijo ao menos a expectativa de uma surpresa, quer ela aconteça ou não. Expectativa, por si só, já é um entusiasmo.

Quero que o fato de ter uma vida prática e sensata não me roube o direito ao desatino. Que eu nunca aceite a idéia de que a maturidade exige um certo conformismo. Que eu não tenha medo nem vergonha de ainda desejar

Quero muito mais



Quero uma primeira vez outra vez. Um primeiro beijo em alguém que ainda não conheço, uma primeira caminhada por uma nova cidade, uma primeira estréia em algo que nunca fiz, quero seguir desfazendo as virgindades que ainda carrego, quero ter sensações inéditas até o fim dos meus dias.

Quero ventilação, não morrer um pouquinho a cada dia sufocada em obrigações e em exigências de ser a melhor mãe do mundo, a melhor esposa do mundo, a melhor qualquer coisa. Gostaria de me reconciliar com meus defeitos e fraquezas, arejar minha biografia, deixar que vazem algumas idéias minhas que não são muito abençoáveis.

Queria não me sentir tão responsável sobre o que acontece ao meu redor. Compreender e aceitar que não tenho controle nenhum sobre as emoções dos outros, sobre suas escolhas, sobre as coisas que dão errado e também sobre as que dão certo. Me permitir ser um pouco insignificante.

Não precisamos de explicações, mas de compaixão

A insatisfação pode revelar questões que necessitam ser encaradas com  coragem

E, na minha insignificância, poder acordar um dia mais tarde sem dar explicação, conversar com estranhos, me divertir fazendo coisas que nunca imaginei, deixar de ser tão misteriosa pra mim mesma, me conectar com as minhas outras possibilidades de existir. O que eu quero mais? Me escutar e obedecer o meu lado mais transgressor, menos comportadinho, menos refém de reuniões familiares, marido, filhos, bolos de aniversário e despertadores na segunda-feira de manhã. E também quero mais tempo livre . E mais abraços.

Pois é, ninguém está satisfeito. Ainda bem.”

Crônica de Martha Medeiros

Hoje eu estou desolado e não tenho razões para mentir, e vivo da minha desolação o meu processo de continuidade, porque se eu nego o sofrimento que me ataca, ele nunca vira arte dentro de mim. Padre Fábio de Melo

Veja também: https://laircecardoso.com.br/pedacos-da-vida/aprenda-a-amar-a-si-mesmo/

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Sobre o Autor: Lairce Cardoso
Lairce Cardoso

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Nasci no berço da família Cardoso, na cidade de Paranapuã, no interior de SP no dia 15 de Julho de 1.963. Sou a nona filha do Senhor Libério e da Dona Lindaura.

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