Blog Lairce Cardoso

Lairce Cardoso

CIDADE GRANDE

17 de janeiro

Ah! A cidade grande. Quantas vezes Larissa sonhou em conhecer a cidade grande. Queria estudar, trabalhar e ter um futuro diferente da sua mãe.

– Isso é tudo ilusão! Ela dizia ela toda vez que Larissa trazia o assunto à baila.

E foi assim que ela foi se acostumando com a vida brejeira da cidade do interior, mas seu coração disparava dentro do peito e seus olhos brilhavam de emoção quando a tia a Rosa as visitava e tentava convencer Rute de que a filha poderia ter um futuro promissor na grande metrópole.

– Esta menina é bonita e inteligente demais para ficar mofando aqui neste fim de mundo deixe-a voar e você verá do que ela é capaz.  Rosa sempre usava o mesmo argumento a fim de persuadir Rute.

Mas a mãe era irredutível e toda vez que a tia tocava no assunto ela sempre tinha uma resposta ofensiva para encerrar o assunto.

– Filha minha não vai ser rapariga na cidade grande. Seu lugar é ao lado de sua mãe que lhe deu a vida e ensinou-lhe os bons costumes. Não precisa tentar a sorte longe daqui, pois nesta cidade temos tudo o que precisamos. Quando você tiver sua filha eduque-a como quiser, mas a minha jamais terá minha autorização para sair daqui. E ponto final. Era sempre assim que dava como concluída a conversa.

E lá estava ela agora na cidade grande. Já não precisava mais da autorização da mãe porque agora era dona de sua vida e a comandaria como achasse conveniente.

Larissa chegou logo pela manhã na capital paulista e aquele vai e vem de pessoas à princípio a assustou um pouco. Nunca viu tantas pessoas reunidas num mesmo lugar. O frenesi das pessoas apressadas com os seus afazeres acotovelando-se na ligeireza de ganhar tempo e espaço tirou-lhe o ar.

O silêncio ao qual estava acostumada em sua cidade deu lugar ao barulho ensurdecedor advindo das músicas altas, das buzinas e guinchos de freios dos carros, ônibus, motos e caminhões além do falatório enlouquecido das pessoas, embora ninguém conversasse com ninguém, típico de cidade grande.

Toda aquela agitação da cidade grande fez o coração da moça acelerar e sua pressão arterial aumentar, mas embora ainda que sentisse assustada não podia negar o o encantamento com toda aquela movimentação.

– Sim, esse é meu lugar, aqui tem tudo a ver comigo. Pensou enquanto caminhava no meio daquela multidão, como se sempre tivesse vivido naquele lugar. 

Depois de muita informação e de vários transportes, finalmente chegou ao seu destino. Conferiu, mais uma vez, o endereço anotado num pedaço de papel e, sim, estava no lugar certo.

Apressou-se a tocar a campainha e uma senhora ruidosa que Larissa conhecia muito bem, veio atender a porta e ao avista-la à sua frente, recebeu-a com um forte abraço e com muita festa.

Larissa tentou se desvencilhar do abraço da tia, que insistia em beijá-la e parecia que tinha uma urgência estranha em mostrar-lhe o quanto se importava com ela, assim como fazia quando a visitava nos tempos de infância.

– Então, minha menina, até que enfim teve a coragem de largar aquela megera de sua mãe. Quando foi isso? Faz muito tempo?

Larissa, analisou a casa colorida e cheio de enfeites e chegou a uma conclusão.

– Agora entendo porque que minha mãe nunca quis que eu viesse nem visita-la. Aqui é uma casa de …

– Pessoas felizes – atalhou a tia. Se não queres causar nenhum ranço, antes mesmo de se acomodar por aqui, cuidado com seu julgamento. Mas diga-me vieste para ficar?

– Tudo dependerá de como meus planos fluirão.

– Ave Maria! Sinto cheiro de anarquia nesta resposta. Mas cada coisa em seu tempo e lugar, imagino que deve estar cansada e faminta, então vá descansar e se alimentar e depois teremos tempo para resolver, seja lá o que for preciso resolver.

– Pedro, meu filho, leva as coisas de Larissa para quarto que preparei para ela. Venha, minha menina, vamos comer alguma coisa enquanto fofocamos, especialmente sobre sua mãe.

E abraçadas seguiram para um pequeno alpendre, onde estava posta uma pequena refeição que, percebia-se, foi preparada para a sua chegada.

Bem mais tarde depois que havia descansado da longa viagem Larissa voltou a procurar pela tia. Precisava colocá-la a par do real motivo de sua ida à capital.

Rosa preparou um delicioso lanche da tarde para as duas e, como era bem de seu feitio não economizou na fala deixando a sobrinha sem ação.

– Então para quando é o bebê?

– Como sabe? Não falei nada. Acaso falaste com minha mãe?

Rosa deu uma risadinha irônica e continuou a falar com a sobrinha.

– Nem precisou. Só de bater o olho em você quando aqui chegou percebi que carrega uma vida em seu ventre. Aliás, no seu telefonema, já notei que existia um motivo muito forte para sua vinda para São Paulo, só não sabia o que era.

Larissa ficou em silêncio não sabia como começar o assunto.

– O gato comeu sua língua? Vamos lá desembuche menina. Mas vou logo avisando não me enrole. Se tem uma coisa que sei identificar de longe, depois dessa minha caminhada de vida, é mulher prenha e homem safado. Então estamos falando exatamente de que?

– É bem direta né, Tia Rosa? Não vou esconder nada da senhora e vou contar-lhe tudo.

Quando terminou de contar o ocorrido Rosa permaneceu em silêncio, olhando para a parede, sem deixar pistas se havia ouvido tudo o que a sobrinha lhe contou.

– Não vai dizer nada? Até parece que não ouviu nada do que eu disse porque não fez uma pergunta ou comentário sequer.

– Estou aqui pensando, mas ainda não cheguei a uma conclusão plausível. Não sei se é uma idiota apaixonada ou uma tola pretensiosa.  Quanta estupidez e ignorância. Acaso, durante toda sua vida, não tiveste um exemplo bem convincente de que essa história de golpe de barriga não funciona?

– Sei que não estou em posição de exigir nada, mas não gostaria de ser ofendida. Sei que não fui muito inteligente na execução de minhas estratégias e, pode estar certa, não tinha planejado essa gravidez, mas já que engravidei tenho direitos e só isso que quero. E não! Não estou apaixonada, se quer saber, só não quero assumir esse filho sozinha.

– Direitos? É ainda mais tonta do que eu imaginava. Acha mesmo que vai aparecer cobrando direitos e ele vai assumir tudo?

– Ou ele faz isso ou arruinarei os planos dele. No tempo de minha mãe não tinha leis, mas hoje sim.

Tanto no tempo de sua mãe quanto nos tempos de hoje, existem homens que não merecem esse título. Se confiasse nesse seu homem , acaso precisaria estar aqui a bolar planos para resolver a porcaria que aprontou? Disse a tia muito irritada.

– O mal de vocês é achar que corpo bem feito e bunda bonita pode segurar homem isso tem a rodo por aí. Ninguém tem o direito de usar os outros para garantir sucesso de vida. Cadê sua dignidade? Porque ao invés de ficar tentando aplicar golpes para se dar bem às custas alheias, não usou sua inteligência para adquirir sua independência? Concluiu Rosa.

– Já disse que não planejei essa gravidez – disse Larissa muito irritada.

– Então deveria ter mantido suas pernas bem fechadas ou então tivesse se cuidado.

– Olha quem diz? Acha mesmo que tem moral para cobrar alguma coisa sobre isso?   Falou Larissa , sem medo de cutucar a onça com a vara curta.

– Não lhe devo satisfação do que eu faço ou deixo de fazer, mas de uma coisa pode estar certa jamais me aproveitei de ninguém. Quem vem até minha casa sabe o que encontrará aqui e vem porque quer e eu não ofereço nada com uma mão para abocanhar com a outra. Não costumo julgar ninguém, pois cada um faz de sua vida o que bem entender, mas não suporto hipocrisia.

 – Se quer procurar esse seu homem – Continuou falando muio nervosa – vá, mas tome muito cuidado porque se ele for como disse provavelmente levará um belo pontapé.

-Você não sabe do que sou capaz e eu não medo de lutar pelos meus direitos.

-Deixa de ser arrogante e pare de ficar pousando de senhora inteligente, como julga ser e, por favor, pare de se achar a vítima do mundo porque de coitada não tem nada. Tá mais do que na cara que no fundo o que quer é lograr bens financeiros. Cuidado! É só o que posso dizer, mas não me meta nessa empreitada. Nada farei para ajudá-la.

 – O que eu acho insuportável de aturar é que todos tem um dedo sujo, mas agora todo mundo resolveu que apenas eu sou indigna. Ninguém pode, pelo menos, me dar um voto de confiança.

– Quer um voto de confiança? Pois bem eu lhe darei, mas como disse, tenha dignidade. Está multo claro que esse homem usou-a para se divertir um pouco e não será porque carrega um filho, que ele não pediu, que olhará pra você com mais simpatia, muito ao contrário, cara minha, se sentir-se ameaçado , por causa dessa criança, odiará a você e a ela.

Filho é coisa séria – continuou Rosa –  e não temos o direito de usá-los como sustento de vida, para prender homem ou de qualquer outra forma.

E a tia continuou sua fala, com muita seriedade. Larissa ouvi-a em silêncio.

Acha que seu filho merece ser exposto desse jeito. Se quer meu voto de confiança proteja essa criança e não o exponha ao perigo desse jeito. Aceite a amizade de seus amigos e construa uma vida sóbria e respeitosa. Aí sim, acreditarei que errou mais merece respeito ao reconstruir sua história. E aí, poderá contar sempre comigo.

– Então devo voltar para aquele fim de mundo e trabalhar feito uma louca, perder os melhores anos de minha juventude para criar esse filho, que não fiz sozinha, enquanto ele desfruta de tudo o de bom? É isso que devo fazer?

– Estou dizendo que se dê a oportunidade de crescer e aprender a ser gente. Não fizeste esse filho sozinha, mas é no seu ventre que ele crescerá e portanto é você que deverá amá-lo mais que ninguém, você deve isso a ele, pois a sua insensatez o criou.

– É verdade ele cresce, mas não sei se o deixarei crescer mais no meu ventre. Se não tiver garantias de sustento dessa criança não sei se permitirei que venha ao mundo.

– Estúpida! Tenho pena dos fins de seus dias Larissa, se consumar essa estupidez. Pense bem. Rosa estava furiosa com a conversa de Larissa.

– Já pensei muito bem e nada me fará mudar de opinião. Se ele não quiser assumir esse filho, que então, me ajude a livrar-me dele.

– Saia dessa casa Larissa! Não permitirei que me envolva nesta sua história sórdida. Já anoiteceu, mas amanhã quando me levantar não quero mais vê-la por aqui.

– Assim será! Disse Larissa ao se retirar furiosamente do escritório da tia. Na pressa ao sair da sala quase atropelou uma das moças que vivia na casa, que lhe deu um risinho de canto de boca.

Larissa resmungou algum palavrão e continuou andando sem olhar para trás. Se olhasse veria que ambas continuaram a segui-la com o olhar, porém em cada um, tinha um brilho diferente.

Capítulo XII – Cidade Grande

Veja o Capítulo XII – Quando as aparências enganam https://www.laircecardoso.com.br/romanceando/quando-as-aparencias-enganam/

Sobre o Autor: Lairce Cardoso

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Nasci no berço da família Cardoso, na cidade de Paranapuã, no interior de SP no dia 15 de Julho de 1.963. Sou a nona filha do Senhor Libério e da Dona Lindaura.

Comentários (1)

Léo alvarenga Responder

ಠ︵ಠ

3 de fevereiro de 2020 at 07:52

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